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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Testemunho Corajoso - disturbios alimentares

"Boa Tarde

Queria apenas partilhar o meu testemunho e explicar-lhe o que se passou comigo, talvez na esperança de que me possa dar alguns conselhos.

Tenho 19 anos, vivo em Coimbra e sou estudante.

Após a minha entrada na Faculdade em Outubro de 2007, com 18 anos, muita coisa mudou na minha vida. Horários diferentes, professores diferentes, amigos novos, mais exigência e stress, etc. Ainda hoje não sei se terão sido estes os motivos para eu ficar doente. Penso que o facto de me terem dito "estás mais gordinha" também ajudou.

Acontece que comecei a deixar de comer e ganhei um enorme medo de engordar. Tinha 1m65 e 55kilos. Progressivamente fui perdendo peso e em Junho de 2008 pesava 42kilos. Na altura penso que nem me apercebia do estado em que estava a ficar. Olho para fotografias dessa altura e estava horrível, era verdadeiramente pele e osso. Mas eu achava que estava bem, que não se passava nada comigo. Alguns amigos meus diziam para ter cuidado porque estava muito magra, perguntaram mesmo se eu tinha anorexia e eu ria-me e dizia que não e que estava só um bocadinho mais magra. Achava que era uma doença que não me ia atingir porque não me achava assim tão magra.

Contudo, depois de muitos amigos dos meus pais se preocuparem e comentarem que eu não estava bem, os meus pais decidiram levar-me ao hospital. Foi então que comecei a ir a consultas de Distúrbios Alimentares, mas continuava a negar que tinha Anorexia. Só no dia em que recebi pelo correio uma carta do Hospital com a conta de uma consulta e li "Diagnóstico Anorexia Nervosa" é que me apercebi de que realmente estava doente.

Nas consultas deram-me um Plano Alimentar Diário para eu seguir e eu comprometi-me a cumpri-lo. Inicialmente foi muito difícil porque só com uma sopa eu já me sentia cheia, inchada, mal disposta. Mas progressivamente fui conseguindo comer e aumentei de peso.

Aqui surge outro problema. Aumentei de peso de forma saudável, mas cheguei a uma fase em que comecei a comer descontroladamente, sem parar. Comecei a ter compulsões alimentares principalmente à noite. Durante o dia como normalmente, mas chega a noite e é um descontrolo enorme. Como principalmente alimentos com açúcar, por exemplo bolachas, chocolates, etc. Neste momento tenho 55kilos tal como antes, mas sinto-me todos os dias frustrada e infeliz por não conseguir resistir à comida. Passo o dia a pensar que nao devia ter comido tanto, faço exercício físico mas chega a noite e vem outra vez mais um descontrolo. Ando irritada e por vezes fico tão triste que não saio de casa e chego mesmo a isolar-me dos meus amigos. Não percebo o que se passa comigo porque se antes me consegui controlar, o que se passa agora? Porquê este descontrolo?

Continuo a ter consultas e já discuti o meu problema com o meu psicólogo, mas até agora todos os conselhos que me foram dados não serviram de nada. Quero mesmo muito sair desta situação, deste poço no qual entrei há muito tempo. Sempre tive muito pouca auto-estima, nunca me valorizei mas estar neste estado só piora tudo.

Agradeço a atenção"

Madalena (nome ficticio)

Resposta: Bom dia

Desde já gostaria de lhe dar os parabéns pela sua coragem e determinação. Parece ser mais uma pessoa que está envolvida na sua recuperação, por isso - "Recuperar É Que Esta A Dar". Bem-vinda ao clube. Fico sensibilizado por me "pedir conselhos".

Como você sabe, e se calhar melhor do que qualquer profissional, na qual me incluo, o problema que a atormenta há já alguns anos da sua vida é algo complexo e multifacetado. Por isso, requer uma abordagem multidisciplinar. Isto é, quantos mais aliados (recursos) na sua recuperação melhor para si.

Como profissionais não possuímos todas as respostas às angústias e sofrimento dos nossos pacientes. Em muitos casos sou confrontado pela impotência e frustração. Todavia nada me impede, tal como você, pedir ajuda a outros colegas (aliados/recursos) e até aos próprios pacientes quando somos confrontados com obstáculos e barreiras. "Juntos conseguimos aquilo que sozinhos não somos capazes."

Posso fornecer-lhe algumas dicas. Sugeria que procurasse um/a nutricionista com conhecimentos sobre os distúrbios alimentares. Se calhar pode aprender como "trocar" os alimentos ricos em açúcar, tal como refere que acontece à noite com os chocolates, bolachas etc. por outro mais saudáveis.

 È muito "fácil" desenvolvermos hábitos/padrões de comportamento disfuncionais - ex. alguns alimentos, drogas licitas e/ou ilícitas, incluindo o álcool, fazer compras, relações, sexo, etc.) Estes comportamentos geram sensações de bem-estar e alivio por um lado, mas por outro aprendemos uma forma de "escapar" ao desconforto, à ansiedade, à dor e à tristeza criando assim condições para cairmos na nossa própria "ratoeira". O que outrora nos causava bem-estar acaba por se tornar num habito/padrão disfuncional que nos "protege" de enfrentarmos as nossas emoções mais desconfortáveis de uma forma mais realista e construtiva.

Fale com o seu psicólogo sobre a possibilidade de frequentar terapia de grupo com pessoas com os mesmos problemas e sentimentos que você.

Existem Grupos de Ajuda Mutua em Inglaterra. Se está Ok com o inglês pode trocar emails e informação com pessoas que tal como você que está em recuperação e procura uma forma saudável e construtiva de viver com este problema complexo. Acredito se as contactar elas iram ajuda-la.

Já agora deixo estes links (em ingles) que podem ser "alimento pró pensamento"

 http://www.nationaleatingdisorders.org/

http://www.eatingdisordersanonymous.org/

http://www.b-eat.co.uk/Home

http://www.oagb.org.uk/

"Se encontrares um caminho sem obstáculos, pensa que talvez não te leve a lado nenhum" Autor Anónimo.

Ah, lembrei-me se quiser literatura em inglês posso arranjar alguns links para adquirir alguns exemplares excelentes.

Posso publicar nos meus blogues o seu testemunho? A sua atitude e compromisso para com a recuperação pode ser "um excelente exemplo a seguir" para outras raparigas e rapazes que sofrem em "silêncio" dos distúrbios alimentares.

Desejo -lhe um novo ano repleto de desafios, vitorias e conquistas. A vida encerra segredos que só serão revelados aqueles que arriscam.

 

 

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