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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Jornal Expresso - a negação e o alcoolismo

Não posso deixar de expressar a minha estupefacção ao ver publicado no Jornal Expresso de sábado (06/06/2009), do qual sou leitor, num dos cadernos - Actual, um artigo sobre um conhecido artista, que não vou referir o nome, visto a minha critica ser direccionada ao trabalho jornalístico, na abordagem à problemática do álcool. Segundo a jornalista a dependência é realçada, mas desvalorizada no conteúdo.

Sendo o referido artista uma figura publica e segundo a notícia estar a viver “…o auge da sua popularidade.” parece completamente descabido, visto parte significativa do artigo, fazer alusão ao alcoolismo em jeito de novela, apelando ao glamour antiquado e desfasado da realidade, alusivo ao sexo, drogas e rock`n` roll característico do meio artístico, em Inglaterra e nos EUA nos anos 60. Esta máxima tornou-se moda, perpetuando-se no tempo, afectando negativamente a vida de milhares de artistas - homens e mulheres - e pessoas anónimas. Infelizmente, muitos deles já não fazem parte do mundo dos vivos, felizmente outros permanecem em recuperação (mudança de estilo vida) das suas dependências. Qualquer profissional ou indivíduo dedicado e comprometido com a recuperação das dependências rejeita este tipo de jornalismo nos dias de hoje.

O alcoolismo é uma doença grave que afecta milhares de pessoas e famílias inteiras, incluindo as crianças. È um problema de saúde publica em Portugal. Segundo alguns dados existem 1.800.000 indivíduos com problemas com o álcool em Portugal. Apesar de a nossa cultura continuar a reforçar o consumo e o abuso do álcool, não será digno para aqueles que sofrem de alcoolismo, esta doença ser tratada com o devido respeito? Sim, claro.

É urgente “desmontar” e descodificar estes mitos, crenças e novelas que teimam em permanecer resistentes na nossa cultura sobre as dependencias de substâncias psicoactivas lícitas, inlcuindo o alcool e as ilícitas, parece existir pessoas e instituições interessadas em “imortaliza-los”, infelizmente os meios de comunicação social são peritos em gerar a confusão nesta materia em vez de prestarem um serviço digno e especializado às pessoas. É indispensável proteger as crianças e os adolescentes vulneráveis, que idolatram os seus ídolos, a estes fenómenos culturais/artisticos disfuncionais, e assim prevenir novos casos de dependência. O problema das dependências não acontece só aos outros. Na realidade, todos nós conhecemos casos de excelentes artistas que sucumbem à dependência activa e que são notícia pelos piores motivos.
 
Em 1993, encontrava-me em formação em Inglaterra, num centro de tratamento em regime de internamento para indivíduos com dependências. Um dia, num dos muitos grupos de terapia, assisti a algo insólito mas realista e profundo nas dinâmicas transformadoras e motivadoras geradas no tratamento e na recuperação (mudança de estilo de vida) das dependências. O grupo era composto por 12 membros/pacientes e dois técnicos. Um dos pacientes e membro daquele grupo, um artista inglês conhecido, que por razões óbvias vou preservar a sua identidade, estava internado por motivos relacionados com a dependência do álcool.
 
Este artista inglês iniciou o grupo de terapia, parecia inquieto e ansioso, admitia perante si e o grupo a verdadeira dimensão e as consequencias negativas do alcoolismo “Ao longo da minha vida o álcool sempre me acompanhou e a ele recorri para me apoiar, era a minha muleta e o meu fiel amigo. Bebia para lidar com as minhas emoções dolorosas; medo do sucesso, da exposição pública, das pressões, da tristeza, da dor e da ansiedade. Refugiava-me na negação do problema, não reconhecendo as consequências negativas, mais que obvias, na minha vida e na vida dos outros à minha volta. Hoje, aqui internado fico assustado ao pensar como será depois do tratamento? Como irei fazer o meu trabalho e viver sem o álcool? Serei a mesma pessoa? Não sei, se consigo suportar a pressão do dia-a-dia sem o álcool. Sinto medo de falhar, nesta fase de mudança minha vida.” Um dos membros do grupo, com alguma experiencia de recuperação, retorquiu de uma forma espontanea e apropriada; “Sei perfeitamente o que queres dizer. Já pensaste em mudar de carreira, se for necessario de forma a manteres a tua recuperação em primeiro lugar? Se a mudança/abstinência significar melhorias na tua vida, estás preparado para abdicar do estilo de vida que levavas antes?

Obviamente, para o leitor comum esta questão pode soar a algo descabido. Como é que um artista, no auge da sua popularidade, pode abdicar da sua carreira? Todavia, a questão principal, que aquele indivíduo pretendia colocar ao artista, até que ponto estava determinado a mudar de atitudes e comportamentos em prol da abstinência/recuperação?

A recuperação duradoura implica uma mudança de estilo de vida que possa estar enraizado com o problema das dependências. Para um alcoólico deixar de beber é uma mudança radical e assustadora. Derivado ao alcolismo conheci alguns alcoólicos que perderam a família e o trabalho, ao invés de parar de beber.

Ao ler o artigo do Jornal Expresso senti tristeza e compaixão pelo sofrimento do artista portugês - da sua negação em relação à sua doença, e da sua família que é afectada pela dependência. Faço votos, que encontre o seu caminho de recuperação, para o seu próprio bem, o mais depressa possível.
 
“It only looks like the good life…”