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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Algumas curiosidades sobre o Modelo Minnesota (MM)

 

Durante a minha formação profissional tive o privilégio de estar presente numa das instituições mais reputadas do mundo, sobre o tratamento das dependências de substâncias psicoativas, vulgo drogas, incluindo o álcool, refiro-me obviamente a Hazelden Foundation (http://www.hazelden.org/)

 

Nesse sentido, decidi escrever este post de forma a revelar algumas das características do Modelo Minnesota; a sua génese, a filosofia e a sua história. Para os menos informados este modelo de tratamento é aplicado num regime de internamento residencial tratamento cuja duração é de 90 dias, aproximadamente.

Aproveito para enaltecer a dedicação e o compromisso de algumas pessoas genais  e visionários, durante o final dos anos 40, nos EUA, que dedicaram uma parte considerável das suas vidas a ajudar indivíduos a recuperar a sua dignidade e a recuperação da adicção. Lutando contra o estigma, a negação e a vergonha associados a esta doença.

 

Com este post não pretendo fazer uma abordagem completa e exaustiva deste modelo de tratamento, apenar pretendo salientar e revelar alguns detalhes sobre a sua historia e pessoas.

Para pensarmos no tratamento do alcoolismo e a génese do modelo Minesota precisamos de recuar até ao final dos anos 40, marcado pelo período pós-guerra (II grande guerra mundial), a segregação social, o tratamento do alcoolismo com uma forte vertente religiosa (evangelização) os asilos para doentes mentais e cadeias. Nesta altura ainda não existia o DSM, Manual de Diagnostico de Doenças Mentais, que só surgiu em 1952, nos EUA.

 

Modelo Minnesota “Uma abordagem evolucionária e multidisciplinar na Recuperação da Adicção.”  Jerry Spicer, Presidente Hazelden Foundation, Minnesota, EUA (1949 a 2011)

 

Génese – Instituições envolvidas (Minnesota Model)

1948 - Pioneer House (filosofia do tratamento dos Alcoólicos Anónimos, AA - http://www.aa.org/?Media=PlayFlash) era designado, na altura, como um clube/associação, onde surge o primeiro membro de AA e a primeira figura do Addiction Counselor (1949) como profissão, em colaboração com o Serviço de Saúde Publica de Minneapolis, EUA

1949 - Hazelden (filosofia do tratamento do AA)

1950 Hospital State Wilmar – departamento de psiquiatria (equipa de profissionais cuja abordagem ao tratamento foi inovadora contando também com introdução da filosofia do AA)

 

 

Tratamento Residencial em Regime de Internamento

  • Consiste no processo que inicia quando indivíduo contacta um serviço (Instituição) com vista a uma sucessão de intervenções específicas até se atingir o nível de bem-estar – Avaliação, Admissão, Diagnostico, Plano deTratamento personalizado e Recuperação duradoura.
  • Reduzir ou eliminar problemas associados às substâncias psicoativas lícitas e/ou ilícitas, incluindo o alcool.
  • Reabilitação dos problemas relacionados com as substâncias (diagnostico, assistência, aconselhamento, participação da família, saúde e integração social).

Ligação entre Tratamento do Alcoolismo, o AA e o Modelo Minnesota

  • Número significativo de indivíduos que atingiram a sobriedade através do AA, nos EUA, a visibilidade pública, por exemplo através dos meios de comunicação social e algumas estrelas de cinema, músicos famosos, senadores, políticos em recuperação a assumirem publicamente a preferência pela filosofia do programa de 12 Passos.
  • Em 1935/existiam 100 Membros do AA, em 1942/800 membros.
  • Pessoas genais e visionárias envolvidas no tratamento do alcoolismo – Mel Rosen, Nelson Bradley, Daniel Anderson, Rev John Keller , o filantropo John Rockefeller Junior e a família Butler.

Filosofia do Tratamento MM - anos 50

  • Alcoolismo: doença progressiva e crónica. Multidimensional: física, psicológica, social e espiritual.
  • Alcoolismo: doença crónica e primária; não é um sintoma de outra doença subjacente vs. Tratar da personalidade do alcoólico.
  • A presença ou a ausência da motivação, no início do tratamento, não tem influência no resultado final.
  • O sucesso do tratamento exige uma atmosfera na qual o alcoólico/adicto seja tratado com dignidade e respeito.
  • Os alcoólicos/adictos são vulneráveis ao amplo espectro das mais variadas substâncias psicoactivas. O fenómeno, Dependência de Substâncias, deve ser abordado em tratamento.
  • A abordagem à dependência de substâncias terá mais sucesso se a equipa de profissionais desenvolver um tipo de relacionamento menos formal, mais “intimo” com os pacientes, cujas atividades estão integradas num plano individualizado de tratamento desenvolvido para cada paciente.
  • Para a execução do plano de tratamento designa-se um conselheiro – figura do gestor do caso.
  • Durante o tratamento inclui a participação nos AA (reuniões), trabalhar os Passos, terapia de grupo que combine a confrontação e o apoio, palestras, sessões individuais de aconselhamento e um ambiente dinâmico (cultura - Milieu) de responsabilização e aprendizagem.
  • O AA é a estrutura mais viável após o internamento (follow up) para a Recuperação duradoura/Sobriedade.

 

Minnesota Model-“Milieu” profissional 

  • Abordagem Holística – Poder da experiência espiritual para a Recuperação através dos grupos de ajuda mutua A.A. assume um papel preponderante na abordagem. “Se o outro consegue eu também consigo”
  • Etiologia da doença vs. Programa de Recuperação “Onde não arranha, não se coça” Daniel Anderson . Mais importante que a causa, os objetivos de recuperação (12 Passos) são uma prioridade, através da motivação para a mudança de comportamentos.
  • Equipa Multidisciplinar - Abordagem multidimensional à doença (medicina, psicologia, clero e addiction counselors).
  • Adictos em Recuperação (Addiction Counselors, 1954) Nova designação profissional.
  • “O Alcoolismo requer dois tipos de conhecimento: cientifico e experiencia. Existem dois tipos de escolhas disponíveis - Dinâmica Integradora vs. Polarização Auto Destrutiva.” Daniel Anderson. Fusão da ciência, da teoria e da componente empírica.

Difusão do Modelo Minnesota nos EUA, desde os anos 60.

  • Alcoólicos Anónimos e Narcóticos Anónimos
  • Conferências e cursos profissionais nas Universidades de Yale e Rutgers (1960/1990)
  • Campanhas nacionais através do Conselho Nacional Alcoolismo, (NCA). Marty Mann, co fundadora do NCA, foi a primeira mulher, pertencente ao AA, a permanecer em recuperação durante um longo período de tempo.
  • Estágios e Formação profissional, em Hazelden.
  • Ex colaboradores do Hospital de Wilmar State.
  • Project Match , 1989 – Estudo (5 anos), que contemplou e aprofundou a eficácia e vantagens “emparelhamento” da Terapia Cognitiva-Comportamental, da Twelve Step Facilitation (oriunda do MM) e Motivational Enhancement Therapy no tratamento do alcoolismo.
  • Na Europa - Broadway Lodge (http://www.broadwaylodge.org.uk/), Inglaterra, 1974 (Dr. James Ditzler and Joyce Ditzler)

Modelo de Tratamento (Internamento)

  • Dependentes de substâncias, incluindo o álcool.
  • Conceito de doença
  • Duração da primeira fase de tratamento 60/90 dias. Caso se prolongue o tratamento o paciente deve mudar de setting terapêutico.
  • Abstinência de Substâncias psicoativas
  • Educação s/ Alcoolismo – Sintomas físicos e psicológicos. Ambiente livre de drogas
  • Palestras e Terapia de Grupo (dinâmicas).
  • Envolvimento no AA (Espiritualidade).
  • Aftercare – Pós tratamento.

 

Génese em Portugal

  • Alcoólicos Anónimos,  1978 (http://www.aaportugal.org/)
  • Narcóticos Anónimos, 1985 (http://www.na-pt.org/)
  • Portugal, Lisboa (projeto piloto) – Unidade de Tratamento Intensivo de Toxicodependências e Alcoolismo (UTITA, 1985) no Serviço de Psiquiatria do Hospital da Marinha
  • Era - Empatia, Recuperação e Apoio (1990) através do Dr. Margalho Carrilho, Joana Faria e Cristina Mello
  • Fundação Frei Manuel Pinto da Fonseca (Centro Tratamento São Fiel, 1992/2004), em Castelo Branco. Ao longo da sua existência apoiou mais de 3.000 pacientes. Instituição pioneira nos programas de apoio aos familiares dos seus pacientes, formação continua e supervisão dos seus colaboradores/profissionais.

Apesar do Modelo Minnesota ser uma das referencias mundiais no tratamento das dependências, incluindo o alcoolismo, e do qual eu comprovo a sua validade, não pretendo ser dogmático, porque pela minha experiencia, algumas pessoas não se adaptam à sua filosofia. Nesse sentido, cada um é livre de escolher o melhor tratamento e os profissionais que o/a possam ajudar na interrupção da progressão ativa da doença da adicção; doença cronica, progressiva e caso não seja interrompida poder ser fatal. Estamos perante uma doença complexa.

Mais recentemente, durante o final dos anos 80, surgiu outra denominação, oriunda do Modelo Minnesota, designada de Twelve Step Facilitation. Esta designação é utlizada no Project Match (http://en.wikipedia.org/wiki/Project_MATCH)

 

Depois de colaborar com varias instituições, gostaria de acrescentar que o Modelo Minnesota em Portugal, apesar de existir desde 1985, ainda está numa fase embrionária e a necessitar de uma atualização urgente, ao nível da formação profissional, plano de tratamento, respeito pelos seus pacientes e familiares, equipas de profissionais multidisciplinares dedicados e comprometidos pelas suas carreiras, supervisão e código de ética, criação de uma associação nacional que zele pelos interesses e características do modelo em si, partilha de experiencias entre profissionais por exemplo através de congressos, redes sociais, etc. Apelo aos profissionais e instituições que utilizem o MM que invista mais na colaboração, cooperação e partilha de conhecimento, no final, os nossos pacientes, as suas famílias e a comunidade vão beneficiar muito mais, abram as portas ao conhecimento e à excelência, é um investimento de inestimável valor.

 

Também gostaria de informar que o Modelo Minnesota não tem qualquer ligação institucional ou profissional com os grupos de ajuda mútua dos 12 Passos, por exemplo Alcoólicos Anónimos, Narcóticos Anónimos, Jogadores Anónimos. Por exemplo, oiço com muita frequência pessoas a afirmar que “O centro onde o meu filho está internado é dos Narcóticos Anónimos”, isso é falso. De acordo com estes grupos de ajuda-mútua os seus membros não são profissionais, não possuem instalações para internamento ou não existe a figura do profissional que faz as tradicionais terapias/consultas. Estes individuos ajudam-se uns aos outros recorrendo á sua experiencia e partilha pessoal através do programa dos 12 Passos, a participação de qualquer individuo é voluntaria e livre de qualquer cota ou pagamento. Consulte mais nas tradições de Alcoólicos Anónimos ou Narcóticos Anónimos. Caso tenha alguma duvida envie a sua questão para joaoalexx@sapo.pt

 

Referências bibliográficas:

“Slaying the Dragon – The History of Addiction Treatment and Recovery in America” – William White, 1998, 4ª Edição. A Chestnut Health Systems Publication

“The Evolution of the Multidisciplinary Approach to Addiction Recovery – The Minnesota Model” – Jerry Spicer, 1993. Hazelden Foundation

“Hazelden – A Spiritual Odyssey” Damien McElrath, Ph D. Hazelden Foundation

  

 “Project Match – Monograph Series” National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA), 1989