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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Parar de comer compulsivamente

 

A minha história começa como tantas outras. Sempre fui uma criança gordinha, mas nunca obesa, o que não me preocupava nada, até ao dia em que alguém verbalizou que eu estava gorda e precisava de perder peso. Não sei quem foi, nem quando. Só sei que me marcou profundamente. De repente, eu era diferente dos outros. Tinha peso a mais, tinha de o perder e, pior ainda, tinha de deixar de comer para o conseguir.

A partir desse momento, parecia que estava sempre alguém à espreita, pronto a apontar o dedo e a lançar um olhar reprovador, cada vez que metia um pedaço de bolo à boca. Desde então, o dedo acusador passou a estar presente em todos os momentos que houvesse comida e eu a desejasse comer.

 

Como criança pensei que a solução passava por comer às escondidas. Se ninguém vir o que como, é como se não acontecesse, ninguém me pode acusar ou lançar olhares reprovadores… Foi assim que aprendi a comer às escondidas. Nesses momentos, era só a comida e eu, a minha nova melhor amiga. O prazer foi crescendo, à medida que criava um mundo secreto, só meu.

 

Com a entrada na adolescência a situação agravou-se e o aumento de peso tornou-se evidente. A primeira reacção foi fazer de conta e evitar os espelhos. O que não se vê, não existe… Os comentários continuaram e ajudaram a que comesse cada vez mais, numa espécie de espiral compulsiva. Evitava comer em público.

 

 

Aos 18 anos, levaram-me ao médico e fiz a minha primeira dieta. Segui à risca o que me disseram, mediante a promessa de perder peso. Em seis meses, perdi 20 quilos. A minha vida mudou. De repente, o mundo olhava-me com outros olhos, ou pelo menos, assim os sentia… vieram os elogios, os convites e, de repente, tudo me servia e assentava bem. Tive o meu primeiro namorado a sério.

O mundo tratava-me de um modo muito diferente do que estava habituada. Rapidamente, cheguei a uma conclusão. Nunca mais podia voltar a ser gorda. Acordava, a meio da noite, com pesadelos de que tinha engordado. Aquela que havia sido a minha melhor amiga, ao longo de quase toda a vida, tinha-se transformado na minha pior inimiga.

 

Tive dias em que comi apenas uma maçã e um iogurte. Estava a entrar num processo de anorexia mas, para alguém como eu, que sempre comeu compulsivamente, esse período não poderia durar. Precisava da comida para lidar com as emoções, com os desalentos… Mas, como comer e não engordar? Vomitar.

 

Comecei a comer tudo o que não devia/podia, seguido do vómito. Em pouco tempo, percebi que algo estava muito errado e tive a lucidez de pedir ajuda. Foi assim que conheci o meu primeiro psiquiatra. Nesse dia, entrei no mundo dos anti-depressivos e ansiolíticos, que me acompanharam durante muito tempo. Tempo de mais, até…

 

Recuperei da bulimia, mas não da obsessão pela comida. Os pensamentos eram sempre os mesmos: o que comer, onde comprar comida açucarada, como comer secretamente… É claro, sempre às escondidas, sempre com vergonha.

No passado, a minha criança achava que se comesse às escondidas ninguém ficaria a saber mas, no presente, a adulta sabia que tal não fazia qualquer sentido. Ninguém vê o que eu como mas, eu vejo, eu sei. A vergonha está lá. Os quilos a mais também. Nos dias maus, tudo era um pretexto para comer. A tristeza, a alegria, a monotonia… Ia ao supermercado, comprava porcarias, com as quais me empanturrava a caminho de casa. Tudo muito rapidamente. Para que ninguém visse ou soubesse.

 

Fiz inúmeras dietas. Tantas, que poderia dar palestras sobre alimentação saudável e técnicas para perder peso.

Decidi continuar a procurar ajuda e às prescrições do psiquiatra acrescentei a conversa da psicóloga. Fiz coaching, acupunctura, reiki, terapia regressiva, hipnose, li tudo o que havia para ler sobre o tema… Tentei de tudo um pouco e tudo ajudou (e continua a ajudar) muito. Mas não o suficiente.  

 

Por vezes, a compulsão alimentar parecia estar adormecida. Passava longos períodos de controlo alimentar e perdia peso. Mas, de repente, provocada por um acontecimento, ou mesmo por nada, a compulsão regressava e lá ficava eu descontrolada. Mais uma vez. E sempre foi assim. Durante quase 40 anos.

 

Percebi que pouco mais havia a fazer. Restavam duas hipóteses: rendia-me totalmente à compulsão alimentar, ficava obesa e morria de uma doença que lhe estivesse associada ou, não desistia, e continuava a procurar ajuda até conseguir uma verdadeira recuperação. Como não queria desistir continuei a procurar e encontrei um grupo de apoio para pessoas com compulsão alimentar, os Comedores Compulsivos Anónimos (CCA). Havia encontrado uma ferramenta a que ainda não tinha recorrido. Fui a uma reunião, gostei e continuei a ir.

Finalmente, tinha encontrado o outro lado do espelho. Aquelas pessoas falavam a mesma linguagem, percebiam. Sem pressões, sem julgamentos, sem conselhos (se queres emagrecer, não comas…).

 

Actualmente, encontro-me em recuperação. Já perdi peso e como equilibrada e saudavelmente. Um dia de cada vez, 24 sobre 24 horas.

Sempre procurei um milagre em todas as terapias/tratamentos que fiz, em todas as dietas que experimentei, em todos os livros que li. Todas essas ferramentas foram e continuam a ser muito importantes mas, o verdadeiro milagre, está dentro de nós. E, quando acontece, surge sempre de dentro para fora.

 

Um dia, decidimos que basta. Aquilo já não nos serve. Queremos mudar. Queremos ser livres. Queremos encontrar-nos. Então, voltamos a procurar ajuda e, finalmente, encontramos as ferramentas certas para um novo começo. A estas ferramentas alia-se o poder da única pessoa que nos pode apoiar 24 horas por dia, sete dias por semana... nós! E assim, vamos assumindo o controlo da nossa vida. Aos poucos. Um dia de cada vez…

 

Bem hajam e + 24!

Autora Anónima

 

Email: comedorescompulsivosporto@gmail.com

Blogue: Comedores Compulsivos Anónimos

 

Comedores Compulsivos Anónimos

Reuniões

Porto: Terças-feiras, às 19h30, Paróquia de Cristo Rei.

Lisboa: Segundas-feiras, às 20h00, Igreja S. João de Deus. Quartas-feiras, às 19h30, Colégio Pio XII.

 

 

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