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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Nação resiliente no facebook

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Publicação reditada do Facebook de novembro de 2014.

 

Alguns de nós passam uma parte muito significativa das suas vidas, ansiosos a afirmar: "Nunca tenho tempo para nada e nunca consigo gerir bem o tempo. Ando sempre numa correria..."

 

Sabia que os níveis elevados de ansiedade contribuem para a diminuição drástica da capacidade de raciocínio e da memória? Afecta as funções basicas, por exemplo, a memoria de curto prazo e processamento da informação simples e a mais complexa. Interfere na capacidade de diferenciar entre as tarefas importantes e as irrelevantes. Quando estamos ansiosos é tudo urgente.

Dependemos do tempo a fim de conseguirmos gerir as nossas competências e prioridades; urgentes e importantes. 

1) O que é urgente? 

2) O que é importante? 

3) Ou será tudo urgente devido aos níveis elevados de ansiedade, de preocupação e incapacidade em dizer não devido aos sentimentos de culpa?

Consumo, abuso e dependência. Sabia que ...

 

- De acordo com estimativas das Nações Unidas existem mais de 10 milhões de pessoas dependentes de heroína no mundo. Em cada 1.000 consumidores de heroína, 2,6 irão morrer. Por exemplo, de overdose. A heroína é uma substancia psicoactiva extremamente adictiva.

 

- Sabia que o consumo de crack é considerado das drogas ilícitas a mais adictiva. O consumo do crack está associado ao crime.

 

- Sabia que o álcool é um depressor do sistema nervoso central. Alguns indivíduos com problemas associados ao álcool apresentam sinais e sintomas de depressão major; ideação suicida, tristeza, desânimo, insónia, ansiedade, perda de apetite, fadiga.

 

- Sabia que o abuso de drogas, incluindo o álcool e algumas drogas sujeitas a prescrição médica, pode distorcer a percepção da realidade. As pessoas podem revelar-se irracionais, excêntricas e excessivamente desinibidas. Em alguns casos, podem revelar-se violentas.

 

 - A dependência de drogas, incluindo o álcool e algumas drogas sujeitas a prescrição medica, afecta todo o tipo de pessoas, independentemente do seu estatuto social; por exemplo; estudante universitário, medico, mecânico, engenheiro, canalizador, policia, advogado, economista, advogado, senhora idosa, contabilista, bancário etc.

 

- Sabia que associado ao abuso e à dependência de drogas, incluindo o alcool e algumas drogas sujeitas a prescrição medica, o individuo é sujeito a uma oscilação acentuada das suas emoções que podem variar entre o ódio e a euforia, do entusiasmo à apatia. Por exemplo, é frequente o individuo dependente estar triste e consumir drogas proporcionando a si mesmo uma falsa sensação de felicidade.

 

- Sabia que no inicio do consumo de drogas ilícitas, estas intensificam a actividade; mais concentração, mais desinibição, bem-estar e alivio. Na dependência as drogas suprimem a actividade; menos concentração e perda de memória, mais desadequação e constrangimento, desconforto físico e psicológico.

 

- Os custos humanos e económicos associados à dependência de drogas, incluindo o álcool, são elevadíssimos e dramáticos. O tratamento é um investimento cujo retorno pode revelar-se recompensador.

 

Existe o mito que se deve desresponsabilizar o individuo dependente de certos comportamentos disfuncionais, associados à adicção de drogas e/ou álcool. Na realidade, apesar de a adicção ser uma doença, o individuo deve ser responsabilizado por comportamentos que possam por em causa a sua saúde e a vida das outras pessoas.

 

Sensações fantásticas, mas com consequências dramáticas

Paradoxo: Sensações fantásticas, com base no prazer imediato, mas com consequencias dramáticas, a medio e a longo prazo.

Durante as minhas deambulações pelo espaço virtual, selecionei esta fotografia da qual desconheço o seu autor, porque atraiu a minha atenção, principalmente, pelo conteúdo das palavras, reflectem uma constatação sobre a complexidade do consumo, do abuso e da dependência de substâncias psicoactivas do sistema nervoso central, vulgo drogas lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas. 

 

O ser humano, ao longo da sua evolução e há milhares anos, sempre consumiu e irá continuar a consumir drogas, por inúmeras razões; rituais, tradições, sensações, tendências, etc. Em pleno seculo XXI o que é que aprendemos com o recurso e a utilização das drogas? Quais são os ensinamentos que retiramos dos beneficios e das desvantagens sobre o consumo de drogas?

 

 

A adicção não é um vírus

A recuperação da adicção é um processo para o resto da vida.

Após as noticias recentes sobre o falecimento do actor de Hollywood,  Philipe Seymour Hoffman vítima de overdose de drogas ilícitas, intoxicação que ocorre quando  o individuo consome uma determinada quantidade de droga que os sistemas vitais do organismo são impedidos de funcionar adequadamente,   veio levantar a questão sobre a importância da abstinência, da recuperação da adicção e da recaída. 

 

Philipe Seymour Hoffman permaneceu abstinente durante 23 anos consecutivos. Se o actor faleceu aos 47 anos, fazendo as contas, parece ter iniciado a recuperação com 24 anos. Iniciar a recuperação com esta idade, por si só é um feito extraordinário, mas por outro lado, revela, desde cedo e ao longo do seu desenvolvimento, um individuo vulnerável (predisposição) aos efeitos e consequências da dependência de substâncias psicoactivas, do Sistema Nervoso Central, após duas décadas abstinente, paradoxalmente, recaiu e acabou por morrer de overdose. Não faleceu de cancro ou de doença cardíaca, mas vítima da adicção.

 

Já em meados de 2013, segundos os media norte americanos, Philipe S. Hoffman deu entrada num centro de tratamento para uma desintoxicação, durante dez dias, depois de ter recaído em heroína. Após ter completado o programa de desintoxicação, aparentemente parece ter voltado a frequentar as reuniões de Alcoólicos Anónimos (AA), note-se, já o fazia desde os 24 anos de idade, até 2014. Uma semana antes de morrer, foi à sua última reunião.

 

Este incidente, adquiriu um destaque mediático visto Philipe S. Hoffman, ser um actor galardoado com vários prémios, todavia, gostaria de transpor este caso para o cenário da dependência de drogas, da recuperação e da recaída em Portugal. Existem historias semelhantes de indivíduos adictos, em Portugal, que também permanecem períodos consideráveis abstinentes, em recuperação, mas que acabam, por um conjunto de motivos, reiniciar os consumos de substâncias psicoactivas, incluindo o álcool.

Como profissionais, quando nos deparamos com um individuo adicto a substâncias psicoactivas, vulgo drogas, devemos considerar a abstinência uma meta prioritária? A minha resposta é sim. Um individuo com um historial significativo de dependência (adicção) precisa de ajuda e recursos, a fim de repensar, sobre o seu estilo de vida e as drogas.

 

De acordo com a minha experiencia profissional, visto ainda não existirem estudos em Portugal sobre o tratamento, a recaída e a recuperação da adicção às drogas, o primeiro ano de abstinência é um período crucial, mas ao mesmo tempo critico para o individuo. A adicção às drogas lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas, interferem e comprometem o funcionamento e o desenvolvimento normal do cérebro – estruturas associadas ao prazer e recompensa, assim como a motivação, a memória e a capacidade de tomar decisões. A adicção, conforme vai evoluindo, gradualmente vai incapacitando o individuo de sentir, pensar (défices cognitivos) e tomar decisões saudáveis, ao mesmo tempo, vai deteriorando os vínculos entre as pessoas significativas; perda do controlo, síndrome da abstinência, problemas familiares e profissionais, tolerância às drogas, impotência associado ao sentimento de culpa e a vergonha, a negação e o estigma. Na perspectiva de um individuo adicto, a abstinência total de drogas é interpretada como uma privação radical, com custos psicológicos e sociais consideráveis, porque as substâncias psicoactivas, apesar das consequências negativas funcionam como uma almofada, um amortecedor, um «remédio» e representava um estilo de vida.

Generalizando, o consumo do álcool é encorajado na nossa cultura, somos seres sociais que utilizamos as bebidas alcoólicas com o intuito de «olear» a comunicação. Como profissionais, este tipo de paradigma poderá influenciar a nossa abordagem. Um individuo adicto fica incapaz de adoptar comportamentos saudáveis se consumir drogas, incluindo o álcool. Com muita frequência, escuto este tipo de comentários, entre indivíduos adictos em tratamento das drogas: «Abstinência total? O quê? Nunca mais vou usar drogas? Beber álcool? No verão… ao jantar entre amigos e beber um copo… fumar um charro de vez em quando?»  

 

Um individuo adicto, mesmo em recuperação por longos períodos, não consegue erradicar das suas memórias as sensações e experiencias intensas de bem-estar e alivio que as drogas proporcionaram. Este estilo de vida, centrado nos efeitos das drogas, funcionava como um excelente antidoto de forma a gerir sentimentos desconfortáveis associados ao stress/tensão, ao tédio, à frustração originando uma sensação de despropósito em relação ao rumo da sua vida. A dependência psicológica das substâncias, não desaparece só porque o corpo está livre de drogas – lógica adictiva, exacerbado pelas características da personalidade. Costumo afirmar que viver dependente de drogas é uma ocupação, idêntica ao um emprego, que consome imenso tempo e energia, 24/24 horas, 7 dias por semana e 365 dias por ano. É o assunto mais importante e central na vida do individuo, mais importante até que a própria família, incluindo as crianças, a saúde, a carreira profissional, etc, etc.

Quais são os motivos que levam um individuo abstinente e em recuperação, durante 23 anos, a reiniciar o consumo?

 

 

Negar a realidade significa agravar os sintomas

 

 

Sabia que uma parte significativa das pessoas com comportamentos adictivos (drogas, álcool, jogo, distúrbio alimentar, sexo, codependência, compras, furto) retardam um tempo considerável, em alguns casos décadas, até finalmente reconhecerem que perderam o controlo das suas vidas? Derivado a um conjunto complexo de factores, onde podemos destacar os mecanismos defesa psicológicos (por exemplo a negação, a ambivalência), ficam incapacitados de interromper o comportamento problemático, associado à procura do prazer intenso (excitação, bem estar, alivio) mesmo com a consciência dos danos e consequências associadas à adicção. A Adicção é uma doença primária, não é um sintoma de outro tipo de doença.

 

Quando o passado (memorias) se torna um "peso" intolerável e esmagador é necessário um plano de emergência, para o presente. É um desperdício de tempo e energia reparar algo, do passado, no presente que na realidade é irreparável. O tempo não pára ou volta para trás, mas a adicção pode afectar e comprometer seriamente o individuo com consequências trágicas.

 

Muitas das pessoas que pedem ajuda, para os comportamentos adictivos, o seu nível de motivação é significativamente reduzido, porque consideram que não é algo divertido. Consideram ser assustador pensar que devem preocupar seriamente com o comportamento problema em questão, na prática, se preocuparem pode significar responsabilidade pela mudança e pelo compromisso. É do senso comum que a dor faz parte do desenvolvimento das nossas competências e talentos, todavia, fugimos dela; negando, iludindo, justificando, racionalizando e mentindo. Por vezes, nem sequer reconhecemos que estamos a mentir, a nós mesmos, auto ilusão.  

 

  • Evite o consolo no prazer imediato (drogas, e/ou comportamentos adictivos), evite culpar os outros de coisas que eles, na realidade, não são culpados. Evite a autopiedade e desafie o seu ego (dogmático).
  • Procure as respostas às suas dúvidas e questões dentro de si mesmo, através do auto conhecimento.
  • Procure alternativas recompensadoras para se mimar.
  • Procure pessoas genuínas e honestas. Se você está doente, faça aquilo que a maioria das pessoas doentes faz, procure apoio, a fim de interromper a progressão da doença e iniciar a sua recuperação.

O cérebro adicto

 

 

 Este excerto faz parte de um artigo impresso pela primeira vez na Harvard Menthal Health Letter , edição de Julho de 2004.

http://www.health.harvard.edu/newsletters/Harvard_Mental_Health_Letter

 

As dependência de drogas têm sido um problema persistente ao longo de centenas de anos, mas somente na ultima década, os cientistas compreenderam claramente alguns fatores importantes sobre a adicção: sabemos que provoca mudanças duradouras nas funções cerebrais que são difíceis de reverter. Na prática, isso significa que existem muitos cérebros afetados, quase 2 milhões de indivíduos dependentes de heroína e em cocaína, talvez 15 milhões de alcoólicos, e dezenas de milhões de fumadores de cigarros nos Estados Unidos. Qualquer que seja a solução à vista, será sempre extremamente complexa, entretanto sabemos muito mais hoje, do que há 20 ou mesmo 5 anos atrás, sobre os efeitos das substâncias psicoativas, vulgo drogas, geradoras de dependência no cérebro, assim como também podemos utilizar este conhecimento no tratamento e na prevenção.

 

“Porque é que o cérebro prefere o ópio aos brócolos?” A dependência foi designada desta forma por Steven Hyman, um ex-diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental. A resposta envolve o núcleo accumbens, um agrupamento de células nervosas que se encontram abaixo dos hemisférios cerebrais. Quando um ser humano ou outro animal executa uma ação que satisfaz uma necessidade ou cumpre um desejo, o neurotransmissor chamado dopamina é libertado no núcleo accumbens e produz prazer. Serve como um sinal de ação para com o mecanismo da sobrevivência ou a reprodução, seja direta ou indiretamente. Este sistema é designado de via de recompensa. Quando fazemos algo que oferece essa recompensa, o cérebro regista essa experiência e estamos propensos a repeti-la novamente. Todavia, quaisquer danos nesta zona do cérebro e o abuso de drogas, que liberta dopamina, acabam por comprometer o funcionamento normal desta estrutura cerebral.

 

Na natureza as recompensas surgem após algum esforço e o seu efeito não é imediato, todavia, com as drogas as pessoas descobrem um atalho, sentem gratificação e prazer sem esforço e o seu feito é imediato. Isto é, o cérebro produz quantidades anormais de dopamina. Neste âmbito, o prazer não está a ser usado para a sobrevivência nem para a reprodução, por isso, a evolução não forneceu ao cérebro uma forma de se proteger. Assim a capacidade natural para produzir dopamina (sistema de recompensa no cérebro) é reduzida e a única forma de o cérebro cumprir as suas funções de libertação de dopamina é somente através do consumo de mais droga. O cérebro vai perdendo as suas funções e recursos a fontes de prazer menos imediatas e mais poderosas de recompensa. O dependente vai necessitando de doses mais elevadas e frequentes para obter a mesma sensação de prazer e bem-estar. Por vezes, a motivação do dependente para consumir drogas pode ser reduzida e/ou as drogas consumidas já não proporcionarem o prazer desejado, no entanto, a estrutura do cérebro responsável pelo prazer exige que sejam elas consumidas.

 

Memórias convincentes

As mudanças no sistema de recompensa por si só não podem explicar o fenómeno da adicção. Tal como afirmou, Mark Twain sobre o seu hábito de fumar, “Parar de fumar é fácil.”. Ele tinha feito inúmeras tentativas para interromper o consumo de tabaco. Muitos dependentes passam longos períodos de tempo sem consumir a sua droga de escolha, mas correm o risco de recaída, mesmo após anos de abstinência, mesmo quando o circuito de recompensa de dopamina teve tempo de suficiente para recuperar. Estas pessoas são vítimas de estímulos, designadas de reflexo condicionado.

 

Alterações nas ligações entre as células cerebrais induzidas por drogas estabelecem associações entre a experiência com a droga e as circunstâncias em estas que ocorrem. Estas memórias implícitas podem ser vividas/recordadas intensamente quando os dependentes estão expostos a qualquer lembrança sobre essas situações, tais como; estado de humor, situações, pessoas, lugares ou a própria substância. Um dependente de heroína pode estar em perigo de recaída quando vê uma agulha hipodérmica, um alcoólico quando se cruza com o bar/café onde ele costumava beber ou quando encontra um individuo que foi seu companheiro de bebida. Qualquer adicto pode retomar o hábito ou o estado de humor que ele utilizou para voltar a consumir drogas, seja através de um deslize ou de uma recaída. Ele nunca irá desaprender este comportamento. Uma única dose pequena da droga, em si, pode despoletar uma das recordações mais intensas. Tal como se diz nos grupos de ajuda mútua dos Alcoólicos Anónimos - "É a primeira bebida que faz ficar bêbado".

 

Comentário: a adicção é uma doença do cérebro, progressiva e cronica, não é um sintoma de outra doença ou patologia, eis alguns sintomas:

  • Tolerância: necessidade de consumo de quantidades crescentes de substâncias para atingir a intoxicação ou o efeito desejado.
  • Síndrome da abstinência, vulgo ressaca: a substância psicoativa, vulgo droga de escolha ou outra, é consumida para aliviar ou evitar os sintomas desagradáveis e dolorosos da ressaca.
  • Perda do controlo: substância é frequentemente consumida por períodos mais longos do aquele que se pretende. O consumo é continuado apesar da existência de um problema persistente ou recorrente, provavelmente causado ou exacerbado pelo abuso da substância.
  • Incapacidade, apesar do desejo ou esforços persistentes, para diminuir ou controlar o abuso da substância. Qualquer atividade é abandonada ou diminuída em importantes atividades sociais, ocupacionais ou educativas.
  • Preocupação (Atenção): São despendidas grandes quantidades de tempo em atividades necessárias à aquisição, utilização e os seus efeitos. A doença é o assunto nº 1 na vida do individuo, as suas prioridades são: como obter a substância, o consumir e manter o efeito da substancia, no organismo, o mais prolongado possível e a gestão do stock.

Apesar deste texto se referir às substâncias psicoativas, um numero considerável de indivíduos com comportamentos adictivos, tais como o jogo, o sexo, furto, as compras, distúrbio alimentar apresentam algumas semelhanças no sistema de recompensa cujos comportamentos também comprometem o funcionamento normal do cérebro. 

Por exemplo, ao longo da minha experiencia profissional, observei indivíduos com comportamentos adictivos, em tratamento regime de internamento, por exemplo ao jogo e ao sexo, ao interromperem a atividade adictiva desenvolverem um conjunto de sintomas, físicos e psicológicos, associados e idênticos ao síndrome da abstinência, vulgo ressaca, também observado em indivíduos adicto a substâncias psicoativas, vulgo drogas.

 

Dica: Recuperação comportamentos adictivos

Recuperar da Adicção envolve sentimentos, nesse sentido, você precisa de reaprender novas competências e recursos de forma a identificar e a expressar os sentimentos (pensamentos-sentimentos-comportamentos). Ao contrário daquilo que possa sentir, não são os sentimentos que determinam que tipo de pessoa é; são as suas decisões, das quais você é o único responsável, para o bem ou para o mal. Não são os sentimentos de definem o caracter, mas o resultado das ações. Por exemplo, qual é o seu ídolo? Mestre? Mentor? Herói? O que é que você admira nessa pessoa? São os sentimentos privados dessa pessoa ou aquilo que ele/a é e faz? Na realidade, você não conhece essa pessoa na intimidade.  

 

 Durante a adicção ativa (circulo adictivo) recorre-se às substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool e os fármacos, e as ilícitas ou aos comportamentos adictivos (jogo, sexo, compras, furto, codependência e distúrbio alimentar) para “fugir/adormecer” os sentimentos dolorosos – dor e a compulsão é direcionada para a obtenção do prazer/gratificação. Os fins justificam os meios. “Só mais uma, desta vez vai ser diferente…”

 

Sentimentos Vs. Resultados

Em recuperação faça uma monitorização, a mais honesto possível, dos seus sentimentos, em particular da raiva. Esteja atento/a aos seus impulsos (hábitos e rotinas) aos seus pensamentos irracionais (padrões antigos de julgar as situações e as pessoas). Por exemplo; se você está irritado/a encara um conflito de uma maneira; se está confiante encara o conflito de maneira diferente. Não existe absolutamente problema nenhum, caso você sinta raiva, é humano haver conflitos entre pessoas, principalmente quando se sente frustrado, magoado, desiludido, enganado e/ou injustiçado. Todavia, como você sabe, a raiva é uma energia muito poderosa, que precisa de ser monitorizada e direcionada para algo construtivo. Por exemplo, quando você estiver em raiva (energia poderosa) precisa de pensar no tipo de decisões que pretende fazer e os resultados que pretende atingir, de forma a não cometer os mesmos erros à espera de resultados diferentes. 

 

 

 

Não é o nosso corpo que precisa de mudar: são as nossas atitudes

 

 

 

 

 

O convite à Margarida Araújo para participar no Recuperar das Dependencias tem dois motivos. O primeiro surgiu há vários meses atrás quando a vi, acompanhada pelo seu Personnal Trainer, no mesmo que Health Club que frequentamos e onde apeteceu-me chegar junto a ela dizer: “Desculpe, mas só queria dizer-lhe que admiro imenso” só não o fiz por receio de ser mal interpretado e porque na altura pesava 179 kg. Hoje pesa 112 quilos e perdeu 67 em oito meses. O outro, mais recentemente, foi através de uma reportagem de um jornal onde a Margarida, em conjunto com mais três indivíduos, revelam a sua aventura e resiliência na mudança das suas atitudes.

Nesse sentido, decidi propor à Margarida um simples questionário com 8 perguntas e às quais ela respondeu, com honestidade, na totalidade.

 

 

Identifica alguém na sua família com problemas de obesidade ou outro distúrbio alimentar?
Margarida Araújo: Sim. No que respeita à família nuclear, a mãe e a irmã mais velha. Não no grau de obesidade que alcancei, mas com distúrbios alimentares dessa ordem. No sentido mais lato de família, é possível identificar, entre os meus, tios, primos que sempre tiveram excesso de peso e tendência para engordar, mas sem chegar à obesidade.

Qual ou quais os factores que tenham contribuído para o agravamento do problema (obesidade)?
M.A.: Entre os meus familiares sempre houve o hábito de celebrar à mesa. Mesa farta, almoços que se prolongam pela tarde dentro. E, assim, se criaram maus hábitos alimentares e estilos de vida menos saudáveis.
Ansiedade. Acaba por ser um ciclo, comia porque estava nervosa…depois enervava-me porque tinha comido…e voltava a comer ainda mais.
“Perdido por 100, perdido por 1000…”. E deixamo-nos ir…e pensamos: mais quilo, menos quilos…
Nunca tive problemas de mobilidade e não se pode dizer que era uma pessoa totalmente sedentária, porque sempre andei muito a pé. Por isso, sempre me mexi bem e isso não era, para mim um problema ou algo que me levasse a fazer dieta.
Depois, também nunca tive problemas de saúde ligados à obesidade e, de certa forma, sentia-me uma gorda “saudável”.
Lá no fundo, sabia, que mais cedo ou mais tarde, esses problemas acabariam por surgir...mas quando surgissem, tomaria uma decisão.
Até que me apercebi, que o pensamento não devia, nem podia ser esse. E consciencializei-me que devia agir, antes de essas complicações surgirem.

Afinal, nenhum gordo é saudável, porque a própria obesidade já é uma doença grave.

Quais as dificuldades relacionadas com a obesidade? Problemas físicos, psicológicos e sociais. Ao identificar os problemas acima referidos como se sentiu na altura?
M.A: Ao nível físico, apesar de nunca ter tido problemas de mobilidade e de nunca ter sido uma pessoa sedentária, porque sempre andei muito a pé, o mínimo esforço físico, cansava-me imenso. Caminhar, subir escadas, o simples levantar de uma cadeira, gestos e comportamentos simples que se tornaram, para mim, penosos.
No nível psicológico e no social, sempre me senti deslocada.  
Nunca me sentia bem em parte alguma, mesmo entre amigos, ou em casa, nunca estava suficientemente à vontade.
Nos cafés, nas salas de aula, procurava sempre o lugar mais escondido, longe dos olhares das pessoas.
Quando ia a uma esplanada, tinha que escolher uma que não tivesse cadeiras de plástico…
No cinema, tinha que levantar um braço à cadeira, para me pode sentar…Nos transportes públicos, ocupava 2 lugares.
Ao longo da vida, já fiz muitas dietas, e todas elas com excelentes resultados, mas acabei sempre por recuperar os quilos perdidos.

Isso, foi-me tornando uma pessoa frustrada, derrotista e sem vontade de ir à luta. Este sentimento de “não ser capaz” reflectiu-se em todos os aspectos da minha vida, desde o relacionamento com as pessoas até à minha vida profissional. Cheguei a estar 4 anos desempregada, por vergonha de ir às entrevistas de emprego.
Aparentemente, era uma pessoa feliz, bem-disposta, divertida…e brincava com as situações, muitas vezes para que as pessoas que me rodeavam não se sentissem desconfortáveis, com algum comentário menos simpático.  
E sentia-me feia, incapaz, triste, revoltada, incompreendida…

Quais os factores motivacionais que contribuíram para a mudança?
M.A: Nunca tive problemas de saúde ligados à obesidade e, de certa forma, sentia-me uma gorda “saudável”.
Em Setembro do ano passado, comecei a acompanhar o “Biggest Loser” americano, na Sic Mulher, e deu-se o “clic”.
Comecei a comentar, em casa, que queria inscrever-me num ginásio, mas não tinha coragem…ou melhor, tinha muita vergonha!
No dia 12 de Outubro de 2010, a minha irmã mais nova, a Sílvia, praticamente me arrastou até à recepção do ginásio.  
Ela disse: “Tens vergonha? Vergonha devias ter de estar nesse estado e não fazeres nada!”. E assim foi, inscrição feita, avaliação física marcada para dia 18 de Outubro, a segunda-feira seguinte.
Chegado o dia, dirigi-me ao ginásio para ter avaliação física com o Personal Trainer Gonçalo Fonseca, que tem formação em Reabilitação no Desporto e experiencia em controlo do peso.
Ia motivada, mas cheia de vergonha e com muito medo de fracassar, mais uma vez.
O Gonçalo fez-me subir à balança e deparar-me com o número 179,1! Arregalei os olhos e não consegui dizer nada… Ele disse: “Vieste no momento certo! É agora! Tiveste a coragem de dar o primeiro passo e o mais difícil já está feito!”


A partir desse dia, treino sob a sua orientação, 6 dias por semana.  
Estar-lhe-ei eternamente grata por tudo o que me ajudou a alcançar. O Gonçalo é um grande profissional e um dos pilares do meu sucesso.  
Faz-me exigir sempre mais de mim. Faz-me ir ao limite e superar-me a cada treino. E isso tem sido fundamental neste processo. Porque hoje, me sinto capaz de vencer qualquer obstáculo ou contrariedade que possa surgir.

Visto os seus planos terem tido êxito, qual ou quais os factores que contribuíram para o sucesso?
M.A: Perseverança, perfeccionismo (no sentido de querer fazer sempre mais e melhor, por muito que isso me custe), disciplina, motivação, concentração, espírito de sacrifício e, principalmente, muita força de vontade.

Quais as características da sua personalidade que considera relevante neste processo de mudança, na gestão da adversidade ao longo do plano?  
M.A: Empenhada e cada vez mais cheia de vontade de prosseguir esta saga contra os quilos a mais.

Como se sente agora?
M.A: Sinto-me mais bonita, mais segura de mim, mais capaz. Sinto-me uma vencedora e orgulho-me de cada conquista.
Sinto-me uma atleta, saudável e cheia de energia. Sinto que, desta vez, ao contrário do que aconteceu nas dietas anteriores, não haverá recuos, porque consegui adquirir hábitos de vida saudáveis.
A sensação de frustração já não existe. Hoje sou uma mulher confiante. Sinto-me uma guerreira…vitoriosa.
Sinto-me muito feliz!


Considera que a sua experiencia de vida pode motivar outras pessoas com o mesmo problema a procurarem alternativas e/ou soluções? Explique como.
M.A: Sim. Aconteceu o mesmo comigo. Inspirei-me em casos de sucesso, dei o primeiro passo e fui em frente.  
O facto de ver pessoas como nós, com as mesmas dificuldades e com os mesmos problemas irem à luta pelos seus sonhos e objectivos, apesar dos seus medos e das suas limitações, motiva-nos e encoraja-nos.  
Acomodarmo-nos não é solução. Pior que fracassar é a sensação de não ter tentado.
Por mais árduo que seja o percurso, por muitas quedas que dêmos, não podemos, nunca, desistir de nós. E ver os outros a “arregaçar as mangas” e a vencer pode fazer toda a diferença.

Obrigada, Margarida Araújo.

Contacto: guida.araujo@gmail.com

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Comentário: Os meus sinceros agradecimentos à Margarida Araújo pela sua participação no Recuperar das Dependnecias. O seu exemplo, através da progressão do distúrbio alimentar (obesidade) ilustra o papel disfuncional sobre os hábitos alimentares no dia-a-dia, na nossa sociedade, assim como as consequências negativas a nível psicológico, físico e social.

 

O nosso organismo não está preparado para processar aquilo que comemos e como comemos, como queremos. Está "formatado" para armazenar, sempre que comermos algo que não consigamos processar (metabolismo).

 

Sabia que por vezes comemos de forma a satisfazer as nossas necessidades emocionais? Uma grande parte de nós aprendeu a socializar-se, com comida, para nos sentirmos bem. Recebemos comida por imensas razões, por ex. exprimir amor ou reconhecimento, hospitalidade e ajuda-nos a lidar com a desilusão e experiências negativas (Craighead, 2006).

 

Mais uma vez os parabéns à Margarida pelo seu exemplo de motivação em quebrar a ambivalência, de coragem em enfrentar a negação, o estigma e a vergonha, a resiliência e no seu testemunho/partilha de experiencia. Este tipo de experiencias será recordado, ao longo da vida, como uma vitória perante a adversidade. Mais uma vez reforço que não é o nosso corpo que precisa de mudar, são as nossas atitudes.

Recuperar É Que Está A Dar. Seja da adicção activa (substâncias psicoactivas licitas, incluindo o álcool e a nicotina, e/ou as ilícitas, o jogo, o sexo, o distúrbio alimentar, o shoplifting - -furto, as compras - shopaholics, relacionamento de dependência – codependência), da recaída, da doença crónica, do divórcio, da obesidade, da perda e do luto, da crise, da separação, da saudade, da dor crónica, do insulto e da violência, da depressão, da ansiedade, da auto estima e da dignidade.

 

 

Distúrbio Alimentar em “Piloto Automático”

Desde muito cedo aprendemos que o tempo útil disponível aparenta ser insuficiente. Todos nós vivemos num corrupio diário, capaz de gerar emoções muito dolorosas (stress), como se o nosso bem-estar e a qualidade de vida dependessem disso e andamos uma parte muito significativa das nossas vidas sempre ocupados e preocupados com as contas, com os estudos, com o trabalho, com os pais, com os filhos, com a alimentação, com as compras mais variadas e as arrumações, com o patrão, com o emprego, com a mulher/marido, com a empresa, com as dietas, com o exercício físico e a imagem, com a saúde, com a casa, com o dinheiro, com a família, com o/a parceiro/a, com o sucesso e o prestigio, com a perfeição e o controlo (poder), com a falta de tempo, mas também acontece, por irónico que seja, quando não estamos ocupados também ficamos preocupados. A vida é difícil.

 

Progressivamente, vamos acumulando e sobrecarregando a nossa limitada agenda com tarefas e/ou compromissos urgentes e importantes. Na maioria dos casos, tudo é urgente, para ontem de preferência. Através deste tipo de comportamento problema podemos ficar vulneráveis e expostos à adversidade e/ou à doença,  por ex. comportamentos adictivos (substâncias licitas, incluindo o álcool, as ilícitas, o jogo, o sexo, o distúrbio alimentar, as compras - shopaholics, o shoplifting - furto. Determinados atitudes e comportamentos geradores de desconforto podem despoletar o mecanismo (ex. prazer, bem estar, procura do alivio do sofrimento e/da apatia, do aborrecimento, da depressão ou da ansiedade) que supostamente nos protege da dor (tipo efeito amortecedor) mas na realidade e progressivamente, conduz-nos no sentido contrario, da dependência e mais sofrimento.

 

 

 

Emoções associadas aos comportamentos adictivos (Doença de Sentimentos)

 

Uma imagem vale mais do que 1000 palavras...