Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Livros de 2016

 

livros-sobre-jornalismo.jpg

 

 

As minhas leituras de 2016, das quais recomendo.

  • “Incógnito” – David Eagleman
  • “Fluir” – Mihaly Csikszentmihali
  • “Como Ser Feliz” – Sonja Lyubomirsky
  • “O Lado Bom da Irracionalidade” – Dan Ariely
  • “A Força do Habito” – Charles Duhigg  - Perceber e Corrigir os Hábitos na Vida e no Emprego
  • “Mindset” – Dra Carol S. Dweck – A Atitude Mental para o Sucesso
  • “A Vida Que Floresce” – Martin E. P. Seligman -
  • “Grit” – Angela Duckworth – O Poder da Paixão e da Perseverança

Nota pessoal: O critério para a seleção dos livros deve-se, principalmente, sobre os seus autores, investigadores de renome, cujas temáticas, tais como a motivação, a mudança, a felicidade, a resiliência, a garra, a persistência, os hábitos são temas recorrentes no meu trabalho do dia-a-dia. Desde 1993, dedico uma parte substancial, da minha carreira profissional, à aprendizagem contínua como forma de manter-me atualizado, a fim de prestar o melhor serviço possível, a todos aqueles que procuram, na doença e na adversidade, encontrar competências para vencer. Afinal, o que seria de nós, se não tivéssemos defeitos, se não estivéssemos expostos à adversidade e se não tivéssemos ajuda? Graças aos defeitos, à adversidade e haver pessoas especiais, conseguimos ser pessoas honestas, persistentes, mais resilientes e encontrar um propósito na vida; fazer a diferença, pela positiva, um dia de cada vez. As pessoas mais felizes gostam de pessoas.

9 factos sobre a perturbação do comportamento alimentar

9 factos sobre a perturbação do comportamento alimentar.

É possivel recuperar.

As mulheres estão mais vulneráveis, do que os homens, às consequências do álcool

Ao visualizar este video, recordo as variadíssimas historias de mulheres, que acompanhei em tratamento do alcoolismo (e abuso do álcool), ao longo dos últimos vinte anos, em que todas, são poucas as excepções, referem os danos causados pela doença da adicção e a impotência para travar os abusos físicos, emocionais e sexuais. Traumas que permanecem para a vida e com os quais aprendem a viver, o melhor possível. Enquanto outras mulheres, também sujeitas ao abuso, permanecem em silencio, vitimas do estigma e da vergonha.

 

Ao contrario do que acontecia há vinte anos, actualmente, o numero de mulheres com problemas com o álcool tem  aumentado significativamente. Isto significa que a cultura e os padrões de consumo (e abuso) de bebidas com teor alcoólico, por parte das mulheres, tem sofrido algumas alterações significativas, na minha opinião profissional, para pior, resulta em perda de qualidade de vida.

Veja o video e faça os seus comentarios.

 

Recuperar é que está a dar.

 

«Uma vez não chega e mil não são suficientes»

especiallo.jpg

 

Olá sou o Raul (nome fictício). Reconheci que tenho um problema com o sexo quando senti que não conseguia parar. Coloquei o meu emprego em risco ao desaparecer do trabalho para ir à prostituição ou engate e de estar dias inteiros no trabalho a obcecar com quem seria o próximo parceiro, através dos encontros prévios que tinha tido em chats, para fazer sexo. Não haver limite nas relações que desenvolvia com colegas de trabalho que podiam levar ao despedimento. Era viciado no flirt, nos orgasmos sucessivos, na adrenalina de fazer sexo em locais públicos e em forçar a minha mulher a fazer sexo comigo. Parecia que tinha mais prazer quando ela não queria. De ter relações sexuais (para não falar nas milhares de vezes que pratiquei sexo oral) sem preservativo. Actualmente tenho a certeza que o meu vício me colocou na prateleira na empresa em que trabalho e impediu de constituir uma família. Entretanto tenho três filhos fruto de uma relação de codependência com uma mulher. O meu futuro não sei qual vai ser, só sei que não quero voltar para o inferno em que vivia.

 

Tenho um problema em criar intimidade nas minhas relações. Teve a ver com a ausência de afecto na infância que me levou a buscar sexo para me alienar da minha infelicidade e a usar pessoas na cama como uma droga. E tal como dizem nas reuniões de Narcóticos Anónimos1 " UMA VEZ NÃO CHEGA E MIL NÃO SÃO SUFICIENTES ". Sou bissexual, todas as semanas dizia para mim mesmo que ia parar de agir nos comportamentos compulsivos, mas acabava por ter inúmeros parceiros sexuais. Apanhei algumas doenças venéreas, de fácil tratamento, mas foi mera sorte não ter apanhado VIH, SIDA ou Hepatite C.

 

A pornografia é também um vício que serve de "trampolim" para a compulsão. Através da pornografia é possível uma ligação a um mundo virtual, sem medo de doenças, fantasiando com todos os corpos que a minha cabeça pede. Ao longo dos anos tirou-me a capacidade de desfrutar dos engates, passei a comparar os corpos dos actores no ecrã/monitor com os que encontrava na vida real. Desenvolvi um mecanismo, idêntico ao caçador durante a caça, onde busco uma “presa” entre as pessoas que se cruzam na rua comigo para um possível engate. Essa caça, mais do que o sexo em si, constituía um factor principal do vício.

 

Quando cheguei ao programa do Adictos ao Amor e Sexo  Anónimos (AASA)2 achava que era somente viciado em sexo, mas descobri que muitas das relações heterossexuais mais estáveis que tinha tido eram típicas de um viciado em amor. Começo por fantasiar, achando que essa pessoa me vai curar, para depois, rapidamente a perseguir pelos defeitos que encontro nela. Ao longo destes cinco anos que estou em AASA apercebo-me que tenho medo de desenvolver relacionamentos de intimidade por falta de auto estima .  As pessoas, com as quais mantenho uma relação, coloco-as num pedestal ou são lixo. Quando os meus relacionamentos hetero fraquejam rapidamente recorro as fugas sexuais para apagar a dor. Foi falando com os meus companheiros de luta nas reuniões de 12 passos que fui entrando no espirito da «HONESTIDADE, BOA VONTADE E MENTE ABERTA» meditando sobre situações da minha vida que me causavam dor. Muitas situações ficaram aliviadas, pois dei-me conta que não estava a ter honestidade, nem boa vontade , nem mente aberta. Detestei o meu “padrinho” quando me dizia isso, mas pouco a pouco fui-me libertando das camadas de desonestidade. É como descascar uma cebola (com muitas camadas).

 

 

Ernest Kurtz

hqdefault_0.jpg

 

1935 - 2015

 

No dia 19 de Janeiro de 2015 faleceu o conceituado e ilustre Dr. Ernest Kurtz vítima de cancro no pâncreas. 

O Dr. Kurtz estudou Historia da Civilização Americana em Harvard (1978) e enquanto tirava o seu doutoramento em Harvard, foi o primeiro investigador a quem foi concedido total acesso aos registos dos Alcoólicos Anónimos onde mais tarde escreveu um livro. Foi ordenado padre, na Igreja Católica Romana, em 1961 onde exerceu até 1979. No inicio dos anos 80, iniciou a carreira docente na Universidade da Geórgia. Foi também director de uma instituição de tratamento, para indivíduos dependentes de álcool e drogas, designada Guest House, onde outrora tinha estado internado e começado a sua recuperação do alcoolismo.

 

Participou também como investigador no Departamento de Psiquiatria da Universidade de Michigan e no Center for Self-Help Research. Entre 1978 e 1999, colaborou na Universidade de Rutgers (Summer School of Alcohol Studies) e entre 1987 e 1997, como palestrante na Universidade de Chicago.

 

O Dr. Kurtz dedicou uma parte significativa da sua vida profissional a investigar a adicção e a recuperação, com especial ênfase, a influência da espiritualidade na recuperação. Era também alcoólico em recuperação desde meados da década de 70.

 

Foi autor e co autor de vários livros

  • “Not God; A History of Alcoholics Anonymous”, 1979
  • “Vergonha e Culpa”, 2007
  • Foi também co autor com Katy Ketcham dos livros: “The Spiritual Imperfection”, 1997 e “ Experiencing Spirituality”, 2004

"Historia e imperfeição são os meus temas predilectos;  não necessariamente nesta ordem" Ernest Krutz, 1996 

 

Aproveito a oportunidade para prestar homenagem a tão distinta figura. Morreu o homem; mas a sua herança irá permanecer intacta para a eternidade. Ernest Krutz será sempre uma referência para todos aqueles que trabalham na luta contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos em prol da recuperação do individuo, da família e da sociedade. Os meus pêsames à sua família. Recuperar É Que Está A Dar.

Ao contrario do que se pensa, é possível recuperar da adicção

Suicídio: um acto silencioso e isolado fundamentado em sentimentos temporários e dolorosos.  

Acompanhei inúmeras pessoas que durante uma fase atribulada e dolorosa das suas vidas, afectadas pela adicção activa, contemplaram o suicídio. A adicção é uma doença que na sua génese gera imenso sofrimento, isolamento e que precisa de ser tratada; não é uma questão moral ou fraqueza, mas um problema de saúde, tal como muitos outros. Após ultrapassarem essa fase adversa, essas são pessoas, hoje, não menosprezam as lições do devir. A maioria de nós, nos momentos atribulados de dor intensa, questiona a existência angustiada e atormentada, mas depois de transpor estes sentimentos dolorosos, ficamos mais lúcidos e conscientes das nossas limitações. Apesar de precisarmos de aprender a viver com a dor, podemos e conseguimos mitigar o sofrimento e o isolamento. Como bem sabemos, e por vezes ignoramos, o ego inflamado pode conduzir-nos às nuvens, mas quando fica dorido, também pode arrastar-nos para a escuridão.

 

É um mito considerarmos que o suicídio é um "acto de cobardia ou de coragem". A fim de esclarecer melhor esta questão, podemos fazer esta analogia; decidir matar outra pessoa só por não gostarmos dela nunca será considerado um acto de coragem ou cobardia. Podemos aplicar a mesma logica ao suicídio; fazer mal a nós mesmo, quando nos sentimentos angustiados e deprimidos, também nunca será um acto de cobardia ou coragem. Qualquer pessoa que pense no suicídio estará naquele período de tempo, a viver uma vida atormentada e em sofrimento atroz. Para todos os efeitos, está doente e debilitada. Como é que gerimos os nossos sentimentos quando nos sentimos impotentes perante a angústia e o tormento? Quando sentimos que estamos sós e rejeitados?

 

“Não tome decisões permanentes, sobre sentimentos temporários.”

 

Apesar do sofrimento e da dor temporária; é possível recuperar da adicção, um dia de cada vez.

Saiba mais sobre a dor e o suicidio SOS Voz Amiga. Você não está sozinho/a

 

Desafio ou estorvo

Considera que precisa de mudar algo na sua vida? Você está numa fase de ambivalência? Se a resposta a estas duas questões é sim, este post é para si.

Alguns factores servem para desmotivar:

  • Definir objectivos ambíguos e irreais.
  • Focar a atenção somente em problemas insolúveis.
  • Cismar pela negativa - andar sempre a queixar-se daquilo que não pode, não consegue e não resulta.
  • Falta de reconhecimento, ambição e não participar no processo de mudança com acções construtivas – agente de mudança.
  • Comparar e justificar o infortúnio com o sucesso dos outros.
  • Relacionar-se com pessoas, que afirmam "Não vais conseguir" ou “Não vale a pena tentares, porque não vais ser és capaz.”
  • Ansiedade extrema e projectar no futuro as desilusões e falhanços do passado como se fosse uma profecia; acreditar que vão voltar a acontecer. Consequentemente iremos ficar paralisados e incapazes de criar novas alternativas.

 

 

Assuma inteira responsabilidade pelos seus sentimentos e comportamentos. Cabe a nós decidir o rumo das nossas acções, de acordo com os sentimentos que estamos a sentir em determinada altura e em alinhamento com as nossas convicções. Quando conseguimos reunir a motivação necessária conseguimos feitos extraordinários e fora do comum.

1. Escreva uma lista das vantagens e das desvantagens na mudança.

2. Escreva uma lista das opções e dos recursos que dispõe a fim de reforçar as competências necessárias.

3. Escreva uma lista de pessoas que o/a apoiam na mudança.

4. Os seus objectivos precisam de ser específicos, realistas, auto motivacionais, medíveis no tempo, atingíveis e de fácil compreensão.

 

“ O desejo de fazer alguma coisa porque se considera essa coisa profundamente satisfatória e pessoalmente desafiadora é o que inspira os níveis mais elevados de criatividade, quer nas artes, quer nas ciências ou nos negócios.

Teresa Amabile, Professora da Universidade de Harvard

 

 

Filhos de pais alcoolicos

Este texto, enviado pela Renata, veio no seguimento de uma publicação no Facebook onde solicitei o envio de experiências de adultos, que tenham tido pais com problemas de álcool e/ou drogas ilícitas. Eis o relato da Renata.

 

“Tenho um pai e uma irmã que bebem todos os fins de semana, e às vezes, no meio da semana. Vivem dizendo que é normal, e que, como todos fazem , que mal tem ? Mas percebo a incoerência nas atitudes, no modo de vida maquiado como normal, porém completamente fora do contexto. Percebo atitudes completamente diferentes do "viver em conjunto" o álcool ou a adicção retirou deles o pé do chão, como se estivessem literalmente voando ou como se vivessem em outro mundo sendo o convívio muito difícil dado ao fato que podemos ser diferentes mas precisamos concordar em conectar.

Não há dessas pessoas o menor interesse em saber sobre isso ou parar esse processo...sou adicta e “limpa” e esses familiares precisam de ajuda mas talvez a única maneira de ajudá-los seja ficando bem longe!

João, acabo de expor-lhe minha realidade e tem a ver com o post sobre familiares adictos!

Obrigada”

Renata Ramos

 

Nota: Todos os dados foram preservados com a devida autorização da autora. Contra a contra o estigma, a negação e a vergonha. Bem-haja Renata

 

Comentário: Tal como a Renata refere, a estrutura familiar aparenta estar afectada pelo álcool. Segundo alguns estudos, nos EUA, referem:

  • Os filhos de pais alcoólicos estão mais vulneráveis ao risco de desenvolverem problemas com substâncias psicoactivas – abuso e dependência.
  • Os pais que apresentam problemas com álcool e/ou outras drogas podem influenciar os comportamentos dos seus filhos. O consumo e o abuso de drogas, incluindo o álcool, podem ser considerados permissivos entre a família, incluindo as crianças.
  • As famílias afectadas pelo álcool e/ou outras drogas estão mais propensas ao conflito, comparativamente, aquelas famílias que não estão expostas ao problema do álcool e/ou drogas. Os problemas na família giram em torno do consumo e do abuso de substâncias psicoactivas.
  • O ambiente familiar disfuncional, relacionado com o álcool e/ou outras drogas, propicia a negligencia das crianças e a falta de comunicação entre os seus membros; referências parentais, os papéis na estrutura e dinâmica da família e a gestão de conflitos.   
  • Alguns problemas identificados nas famílias com problemas de álcool e/ou outras drogas: Tendência para o incremento do conflito familiar, violência física e emocional, redução da coesão e da organização familiar, stress e isolamento, problemas de saúde e no trabalho, problemas/ conflitos conjugais e financeiros, mudanças drásticas na estrutura familiar, incluindo as crianças.

 

O seu pai e/ou mãe tem um problema com álcool? Ou drogas? Caso você seja filho/a  de pais alcoólicos ou dependentes de drogas ilícitas escreva um pequeno texto sobre a sua experiência a fim de ser publicada no meu blogue. Pela minha experiência profissional de duas décadas e apesar de não existir estudos sobre este tema, existem em Portugal centenas, de filhos de pais alcoólicos ou dependentes de drogas, hoje adultos, que ainda sofrem em silêncio o trauma, o estigma e a vergonha. Recuperar É Que Está A Dar

Importante: Todos os dados são confidenciais. Sigilo total

Somos mais parecidos uns com os outros do que aquilo que imaginamos

Todos nós temos problemas. Todos nós temos uma história para contar e a dada altura precisamos de ajuda. Porque é que possuímos a tendência excessiva para culpar o outro? Creio que existe uma tendência para avaliar e criticar o outro recorrendo a generalizações demagógicas e a padrões – preconceitos disfuncionais acompanhado de uma falsa sensação de moralismo e de inimputabilidade, em vez de, avaliar o contexto em que o individuo está inserido e investirmos naquilo que considero essencial nos relacionamentos, refiro-me à EMPATIA. É através da relação com o outro que adquirimos consciência de nós próprios. " De perto ninguém é normal."

As pessoas mais felizes gostam de pessoas. São nos detalhes que nos é revelado a essência da personalidade das pessoas.