Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Transição do Tratamento para o Regreso à Vida Activa


 

Transição do Tratamento em regime de Internamento Residencial para o Regresso à Vida Activa – Pós-tratamento


 


Trabalho desde 1993 na área do tratamento, em regime de internamento residencial, e acompanhei aproximadamente 650 casos (adictos), e algumas dessas pessoas estão abstinêntes de substâncias há vários anos, enquanto outras, após um período indeterminado retornam aos “velhos” e “familiares” comportamentos da adicção activa, refiro-me aos deslizes e à recaída.
O que motiva as pessoas a mudar de comportamento e almejar uma vida abstinente de substancias psico activas lícitas, incluindo o alcool, e as ilícitas, e “normais” enquanto outras não?

Sempre me despertou imenso interesse o trabalho da prevenção da recaída e as fases de recuperação no vasto e complexo universo de tratamento e de recuperação da adicção.
Qual o significado do tratamento em regime de internamento para uma pessoa, se pensarmos que a recuperação é algo para a vida? Não existem tratamentos no mundo, que garantam 100% de sucesso, isto é, após o período de internamento, que pode variar entre 3 a 4 meses em primaria (primeira-fase) e 12 meses em segunda-fase (extended care/halfway) os adictos consigam permanecer abstinentes e recuperar os valores emocionais e espirituais, não religioso sem dogmas e ou divindades, de volta para o resto da vida. Também partilho da ideia que no tratamento da adicção, como doença crónica, existe sempre a probabilidade de recaída para algumas pessoas ao longo das suas vidas. Somos seres complexos, por um lado, demasiado previsíveis por outro...

Na minha experiência de trabalhar em tratamento não me recordo de alguém que tenha terminado o tratamento, afirmasse “João, vou para casa e vou voltar a usar drogas e continuar dependente”. Pelo contrario. No caso das pessoas que recaíram, após o tratamento, a grande maioria afirmava que tinha sofrido experiências demasiado horríveis, relacionadas com dependência das substâncias psicoactivas lícitas, inlcuindo o alcool e as ilícitas. Acredito também que após um tratamento de internamento as coisas nunca mais serão vividas da mesma forma, quer para aqueles que permanecem abstinentes quer para aqueles que têm deslizes e recaídas. Adquiriram um conhecimento e uma consciência da realidade e da doença, como uma mais-valia. É como plantar uma "semente", o resto deixa de estar ao nosso alcance. È preciso saber aguardar pelos resultados...

Existem vários factores associados a uma transição com sucesso após o tratamento, em regime de internamento para o regresso à vida activa. Após um período de tempo em tratamento em regime “fechado” é chegado o grande momento; ambicionado e temido ao mesmo tempo – de regresso à vida activa. Para a maioria dos adictos abstinentes, familiares, amigos, e em alguns casos no local de trabalho, é um período onde se experimenta um misto de emoções tais como; ansiedade e alegria, insegurança e confiança e re-adaptação.

Adictos abstinentes que possuam fracos recursos e/ou que não se sintam confiantes podem estar mais vulneraveis quanto cometerem deslizes, ao contrario daqueles que sintam mais confiantes. Individuos que desconheçam e/ou não confiem nos recursos de protecção disponíveis (pessoas, lugares e coisas -P.L.C.) para os apoiar, durante a abstinência, tal como, aqueles individuos que tenham duvidas acerca da viabilidade e da eficácia desses mesmos recursos protectores é possível, perante a adversidade, não utilizarem as “ferramentas” de recuperação para si mesmos.

A Teoria da Aprendizagem Social e da Eficácia Pessoal
No dia-a-dia, após o tratamento, quando as pessoas se deparam com uma situação de alto-risco de deslize (pessoas, lugares e coisas - PLC) têm a tendência para efectuar julgamentos/juízos acerca de qual será o resultado e/ou consequência dessas mesmas situações, tal como, avaliar as suas próprias capacidades para lidar com essas adversidades. Por ex. encontrar uma “velho” amigo/a que use drogas ou depois de ter tido uma grande discussão com a namorada/o dar por si mesmo a pensar em usar drogas. Faz parte da vida e da recuperação estas adversidades e contrariedades (situações de alto-risco). Se o julgamento/intuição de eficácia pessoal é reduzido será provável que antecipem um deslize; voltando a usar drogas e/ou beber alcool. Sentir que a sua eficácia pessoal é segura e eficiente, os individuos são mais persistentes desenvolvendo uma variedade de estratégias de forma a evitar/adiar o uso de drogas e/ou beber alcool. Ao mesmo tempo, que surgem situações de alto-risco, a nível cognitivo, existem sinais de alerta (mecanismo) que possibilitam a avaliação do risco. 

Para alguns adictos, esses mesmos sinais de risco são minimizados e ou negligenciados (auto-ilusão, racionalização, justificação, minimização, negação). Por ex. num restaurante, um grupo de amigos está almoçar. Passado um par de horas, alguns já estão mais eufóricos, devido à ingestão de bebidas alcoolicas, que outros. Um membro do grupo dos “eufóricos” exclama para um do grupo não “eufórico” - “Olha lá ó Xavier, só bebes duas cervejas?! Nós já bebemos 8 cervejas... Bebe mais uma...” O outro responde – “Não bebo mais. Já chega por hoje. Estou bem assim.” O “eufórico” insiste – “Vá lá..., só mais uma, qual é o mal? Estamos a divertir.” O outro responde – “Não, estou bem assim. Não quero mais.” Se o membro do grupo dos “eufóricos” tiver um historial de problemas com o álcool, pode continuar a beber, ignorando os sinais de alerta (situação de alto-risco), por ex. conduzir a sua viatura, enquanto o outro, que optou por não beber mais, permanece alerta aos sinais perigo e decide não correr riscos desnecessários. Esta situação pode acontecer com um adicto que esteja abstinente ignorando, assim os sinais de alerta quanto a situações de alto-risco (pessoas, lugares e coisas - PLC). Se convidado para beber bebidas de teor alcoolico, o adicto abstinente imediatamente avalia a situação e decide tomar uma posição; recusa o convite ou decide aceitar.
Porque é que alguns decidem não beber e outros decidem faze-lo? Qual a consequência da aprendizagem social e da eficácia pessoal nas suas atitudes e comportamentos, durante a abstinência, nesta situação?

È importante identificar quais as situações de alto risco de deslize/recaída, desenvolver e praticar estratégias e recursos protectores, receber feedback construtivo dos seus pares e compreender como a sua eficácia pessoal deverá ser aperfeiçoada, através da persistência, da honestidade, do compromisso e da determinação, colocando-a em pratica, numa base diária, de forma a prevenir a recaída.

Medidas preventivas/protectoras da abstinência, em situações de risco de deslize/recaída.

* Estar atento aos sinais/riscos potenciais de recaída, situações (pessoas, lugares e coisas - PLC) que despolete o “gatilho” (triggers the craving) - vontade intensa (fixação) em usar álcool e/ou outras drogas. Identificar as características pessoais mais vulneráveis, (por ex. relações amorosas, situações de pressão e stress, alterações de humor (depressão, ansiedade) no inicio da abstinência),

* Confiança nos recursos e nas respostas que se estão disponíveis na prevenção do deslize/recaída (pessoas, lugares e coisas - PLC),

* Confiança nas competências pessoais de forma a utilizar esses mesmos recursos e respostas de uma forma positiva e eficaz,

* Oportunidade de testar e praticar as respostas e receber feedback (de individuos que estão em sobriedade/recuperação) de forma a melhorar as capacidades pessoais nas gestão da abstinência. Não vale a pena correr riscos desnecessarios, por ex. "pôr se à prova".
* Oportunidade de desenvolver e melhorar a comunicação; centrando-se nas competências e pericias construtivas (resolução de conflitos, tomar decisões e gestão da emoções), em vez de centrar-se no problema (problem solving skills),
Acreditar que as estratégias de prevenção e protecção se enquadram nos seus valores pessoais.

Uma Transição de Tratamento em Regime de Internamento para o Regresso á Vida Activa com sucesso deve promover uma informação especifica acerca dos riscos de recaída num tipo de linguagem que a pessoa/adicto possa entender.
Deve promover oportunidades de por em pratica estratégias alternativas para se lidar com a pressão que conduzam a situações de alto risco quanto a usar drogas lícitas, inlcuindo o alcool e as ilícitas.
Promover a ajuda mutua e apoio dos pares, entre outros factores de protecção.

Outra opção é desenvolver as competências-da-solução-do-problema (problem-solving skills) que minimize as hipóteses de beber /usar drogas em situações de alto-risco.

SODAS” um modelo de cinco-passos que permite tomar decisões construtivas:

1. Stop - Qual é a situação de alto-risco? Identificar o problema e a solução;

2. Opções - Qual é a acção alternativa que pode pensar? Identificar as consequências positivas e negativas associadas a cada alternativa;

3. Decidir - Depois de avaliar as alternativas, seleccionar uma;

4. Acção - Agir na decisão tomada, 

5. Auto-elogio - Elogiar-se a si mesmo através mensagens internas [dialogo - -auto afirmações por ex. Eu sou...] por reconhecer os resultados positivos
Um dia de cada vez.

Diga para si “Só por hoje não preciso de usar álcool/drogas para o resto da minha vida”


 


Referencias: Northwest Frontier Addiction Technology Transfer Center

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.