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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Conceito de Entrega na Recuperação da Adicção

O conceito de Entrega (1) significa confiar no processo, em vez da lógica adictiva, através da recuperação da adicção e na busca de um sentimento de ligação ao uma força superior imaterial potenciada por um propósito e um sentido espiritual, não religioso sem dogmas e divindades. Entrega não é um conceito estático, mas dinâmico nas conexões intrapessoais e interpessoais. Para recuperar da adicção activa, seja das substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, as ilícitas, o jogo, o sexo, o distúrbio alimentar, a codependência, as compras - shopaholics, shoplfting - furto é preciso de fazer o “trabalho de casa”, todavia, não é possível adaptar a realidade aos desejos e vontade de cada um. Não se consegue controlar as pessoas e não existem seres humanos perfeitos. Não é possível evitar a dôr e a perda. A Entrega é o oposto ao prazer imediato, característico dos comportamentos impulsivos.

 

Na minha experiência profissional, constato, em muitos casos, que o processo de mudança (motivação/desejo sincero) já ocorria mesmo antes de o adicto iniciar a abstinência. Muitas pessoas afirmam, mesmo antes de interromperem a progressão e a compulsividade da adicção activa já procuravam soluções e respostas para o seu problema, mas o isolamento, a perda do controlo e a sensação de vazio só era “preenchida” com as substâncias e /ou comportamentos adictivos. Não sabiam como pedir ajuda, viviam um círculo “vicioso”, chamo-lhe o efeito “pescadinha de rabo na boca” (circlo adictivo). Sabiam e sentiam que algo os estava destruir por “dentro e por fora”; todos os alibis foram esgotados, todas as promessas quebradas e também não se sentiam dignos de confiança. A esperança gradualmente foi desaparecendo dando lugar à angústia e à frustração, à raiva e ao ressentimento, ao medo, a vergonha e à culpa, característico da adicção activa, torna-se uma "prisão".

Durante o progressão da adicção activa aprende-se a agir no prazer e a controlar os resultados imediatos, ex. o efeito adictivo das drogas e/ou comportamentos  (excitação/pedrado/dormência das emoções), por exemplo:  os comportamentos impulsivos, perda do pensamento critivo, definir limites saudáveis e estabelecer planos a medio e/ou longo prazo  tornam-se alguns entraves quanto a admitir e a pedir ajuda, honestamente, e a acreditar que exista outro caminho a seguir, neste caso específico, a Recuperação.

 

O que é que a Entrega tem a ver com a recuperação da adicção?

Após iniciar o processo de abstinência, é importante procurar um apoio genuíno e de confiança em relacionamentos vitais, ex. família, amigos verdadeiros, profissionais e uma orientação de algo Superior, não religioso sem dogmas e divindades. É um sentimento de ligação com uma força superior imaterial através da qual comunicamos e estabelecemos conexões, atraves de valores morais universais, com as outras pessoas. Importa encontrar recursos de protecção, de acordo com os valores individuais de cada um.
Sabemos que a abstinência é só o primeiro passo para interromper a relação com as substancias psico-activas (álcool ou outras drogas liícitas e/ou ilícitas) e/ou comportamentos  (jogo, sexo, relações, compras, furto, e certo tipo de alimentos). Podemos ser muito inteligentes, não é disso que se trata, visto a adicção ser uma doença e sabemos que é muito difícil recuperar sozinho.

Nesse sentido, é preciso fazer a Entrega. Mas, Entrega do quê?

È preciso fazer o luto da substancia e/ou dos comportamentos adictivos (lógica adictiva). Semelhante ao luto/perda que fazemos quando perdemos alguém ou algo importante nas nossas vidas. Essa pessoa era muito importante para nós, mas já partiu e é preciso enfrentar a perda e o luto, porque todos sabemos que a vida tem um fim. É preciso adaptarmo-nos à mudança que está implícita no luto. Sabemos que há-de chegar o nosso dia e que não controlamos quando e como esse dia chegar.

 

Para fazer o luto, em primeiro lugar, é preciso sentir as emoções dolorosas. È preciso sentir a dor. Algo que já é conhecido e familiar, mas que sempre se evitou, negou ou procurou fugir através do consumo de drogas e/ou comportamentos adictivos. Quem gosta de sofrer? Quem gosta de sentir dor? Provavelmente ninguém.

Nesse sentido, é importante fazer a Entrega, após interromper o processo autodestrutivo e enfrentar as consequências físicas, mentais, emocionais, determinados hábitos alimentares, sexo disfuncional (ex. pornografia e/ou prostituição), o jogo (ex. jogar no casino, na lotaria e no euromilhões). Entregar o passado da adicção activa e procurar novos estilos de vida geradores de qualidade de vida. Em alguns casos, inicia-se a ajuda profissional.


Não é possível resolver todos os problemas e obter os resultados desejados de imediato, mesmo que já tenha iniciado o processo de abstinência. Recordo alguns adictos que logo após o início da sua abstinência, desenvolverem expectativas irreais sobre como seria a sua realidade familiar. Pensavam “Bem, agora que já fiquei abstinente mereço ter a liberdade que sempre desejei. Ter os recursos financeiros suficientes para ser autónomo, ter a relação com a pessoa que sempre desejei, ter o carro, o emprego, etc....”. Muitos familiares também alimentam essas falsas crenças desdobrando-se em esforços e sacrifícios para satisfazer esses mesmos desejos, ex. comprar carros novos, preocuparem-se exageradamente, procurando empregos para os filhos, pagamento de dívidas. Faz lembrar o soldado que regressa da guerra e é recebido, por todos, como um herói. É o centro das atenções. Na recuperação da adicção, essas expectativas disfuncionais podem proporcionar um falso sentido e propósito, através da facilitação e proteção. É importante, para o adicto adaptar-se, aceitar a realidade e enfrentar as dificuldades do presente e as consequências passado, no aqui-e-agora, através da entrega. Obviamente, que a abstinência não é fácil, se alguém afirmar o contrário, está a mentir.


Em recuperação é preciso fazer adaptações a um novo modo de vida. Mudar comportamento e atitudes que deterioraram todo um sistema, individual, familiar e social, de princípios e valores universais, por ex. onde antes existia a mentira é preciso repor a verdade e a honestidade, onde antes existia a manipulação e a chantagem é preciso definir limites e compromisso nas relações, onde antes existia a hostilidade e a agressão é preciso comunicar e negociar com justiça e lealdade. Nesse sentido, é importante reconstruir e reparar os danos, um dia de cada vez. È a este processo de aprendizagem e conquistas individuais, de avanços e recuos, que chamo Entrega.

 

 

Conceito de Entrega, autor  desconhecido.

  • Entrega não significa deixar de preocupar, significa definir limites nas relações. "Não posso fazer pelo outro aquilo que cabe ele ou ela fazer."
  • Entrega não é evitar ou fugir, mas realizar que não é possível controlar as outras pessoas.
  • Entrega não é encobrir nem facilitar, mas permitir que se aprenda que cada comportamento tem uma consequência natural.
  • Entrega é admitir a impotência, significa que "Preciso de fazer o meu trabalho mas os resultados, a curto, a médio e a longo prazo, não estão nas minhas mãos." 
  • Entrega não é tentar mudar ou culpar os outros, mas fazer mais por nós próprios. Somos os únicos responsáveis pelos nossos sentimentos e comportamentos.
  • Entrega é valorizar o interior (coração/espirito) de cada um, menos o exterior (aparências, máscaras). Abdicar da tendência para avaliar o nosso interior pelo exterior dos outros.
  • Entrega não é fazer pelo outro, mas mostrar que ele também é capaz.
  • Entrega não é criticar ou julgar, mas permitir ao outro que seja ele mesmo. Não somos todos iguais é necessário e urgente valorizar as diferenças – criar sinergias.
  • Entrega não é ser o centro das atenções e das decisões, mas permitir aos outros que sejam eles próprios a delinear o seu próprio destino – propósito e sentido da vida.
  • Entrega não é ser protector ou facilitador, mas conceder aos outros a oportunidade de encarar a realidade.
  • Entrega não é negar, mas aceitar.
  • Entrega não é criticar e/ou punir mas identificar as nossas imperfeições e procurar corrigi-las. Estar aberto à mudança de atitudes e comportamentos (flexibilidade e reciprocidade).
  • Entrega não é ajustar pessoas, lugares e coisas aos meus próprios desejos, mas adaptar à realidade e aos factos da vida (principalmente, às coisas dolorosas e difíceis) e ser flexível, humilde, honesto e ter compaixão.
  • Entrega não é arrepender do passado, mas viver no presente e crescer para o futuro. É ok, cometer erros.
  • Entrega é ter menos medo e amar mais!”
  • Entrega e deixa ser Ele/Ela (este conceito é individual. É um sentimento de ligação a uma força superior imaterial , não religioso sem dogmas e ou divindades) a tratar dos resultados”

 

"Tal como as crianças frustradas e zangadas, quando destroem os seus brinquedos e nos imploram, em lagrimas, para os reparar. Também trouxe perante Deus, os meus sonhos e planos que ficaram por realizar, porque sendo
Ele/Ela meu amigo/a, como me pode ignorar!?. Todavia, em vez de o deixar em paz a trabalhar sózinho, andei à sua volta a tentar arranjar as coisas à minha maneira. Finalmente, cansado, agarrei-me a Ele desiludido e desesperado e perguntei. “Como pudeste ser tal negligente e desinteressado a resolver aquilo que eu mais desejava? Meu querido, disse Ele, o que é que eu poderia fazer? Mas tu nunca entregaste.” Autor desconhecido

 

 

 (1) Tradução: Let go

 

 

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