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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Comportamentos/mecanismos defensivos observados em tratamento

A minha experiência profissional como técnico de aconselhamento na área da adicção foi exercida, ao longo de 14 anos, no tratamento em regime de internamento, de curta duração (12 semanas). Acredito que o tratamento, neste tipo especifico de regime, realmente funcione. Na minha opinião pessoal a duração do tratamento primário (ambiente livre de drogas e álcool, intensivo e protegido) terá a duração de oito semanas (dois meses), máximo, 12 semanas. Duração que considero suficiente para a maioria dos pacientes, contudo gostaria de salientar - “cada caso um caso”. Termiando este periodo de doze semanas, e mediante uma avaliação do caso pela equipa de profissionais, acredito existir condições de os utentes passarem para o regime de apartamento de reinserção/ halfway/extended care ou ambulatório. A grande maioria dos pacientes necessita de regime de apartamento de reinserção/ halfway/extended care ou ambulatório que pode ter a duração mínima de seis meses até um ano. Contudo não gostaria de falar sobre a duração e o tipo de tratamento, o assunto que gostaria de abordar tem a ver com alguns tipos de comportamento que normalmente são observados e adoptados em pacientes em tratamento.


Como é do conhecimento geral, quem sofre de dependência, seja substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o alcool e as ilícitas ou comportamentos, como o jogo, sexo, compras (shopaholics), copdependencia, disturbio alimentar, shoplifting (furto) só realiza que de facto está em apuros quando a adicção se encontra numa situação avançada e em alguns casos ”fora de controlo” apresentando todo um conjunto de mecanismos (irracionais e disfuncionais) utilizados para manter o comportamento problema, seja consumir substancias ou jogo, comida, sexo, compras, gastar dinheiro. O adicto no activo utiliza todos os meios ao seu alcance, refiro estrategias (mecanismos) disponíveis para atingir os fins (prazer imediato, alivio, recompensa). Ninguém é admitido em tratamento, em regime de internamento, com a sua vida organizada e feliz, bem pelo contrario. Com a agravante, de a família (pessoas significativas) passar por uma fase critica, também eles estão seriamente afectados psicologicamente (doente) pelo problema. Todos os membros são atingidos pelo problema. Isto significa que adoptam, ao longo da progressão da adicção, comportamentos problemáticos, disfuncionais e facilitadores. Evitam ver, sentir e confiar. Adopta-se a “regra do silêncio”.
Não existem culpados. Claro que uns casos mais extremos e dramáticos que outros, mas todos, inclusive a família e amigos/as, sem excepção, experimentam e conhecem a impotência, a obsessão e a compulsão, a negação e a ambivalência, o sentimento de culpa e a vergonha, baixa auto estima, a raiva e o ressentimento, o medo e a angustia, a depressão e a ansiedade e o isolamento emocional. Neste sentido, o problema pode atingir proporções gravíssimas se não for abordado por profissionais competentes. Se não houver mudança nas rotinas, atitudes e comportamentos, nada muda. Nada mesmo. 

Quando uma pessoa (homem ou mulher) que apresenta comportamentos adictivos chega a tratamento realiza, chocado, que algo precisa de mudar nas suas atitudes e comportamentos. Esta realidade é incontornável e inequívoca. A permanência em tratamento durante o tempo definido entre a equipa e o paciente, é uma experiência profunda e significativa a nível emocional, mental e espiritual, não religioso sem dogmas ou divindades. No futuro, após completar o tratamento as coisas nunca mais serão a mesma. Todavia, a maioria dos adictos adopta alguns mecanismos de defesa (comportamentos) observados e adoptadas em tratamento pelos pacientes que reforçam a lógica adictiva.