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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Linguagem dos Sentimentos

A Linguagem dos Sentimentos (gestão intrapessoal e interpessoal)


Como é do senso comum qualquer ser humano tem sentimentos. Fazem parte de nós, é algo que não conseguimos ver, tocar, cheirar, ouvir, mas que conseguimos sentir, isso mesmo, tão simples. Por vezes tão divertido e relaxante e/ou confuso e desconfortável (atabalhoado). Diferente da lógica ou raciocínio, por ex. 2+2=4. Resumindo, na linguagem dos sentimentos 2+2 pode ser igual a 7.

 

Na linguagem dos sentimentos podemos amar alguém, mas também podemos odiar e voltar a amar. Quantas vezes as nossas paixões ultrapassaram a razão ao longo da vida? Por vezes, temos a sensação que não conseguimos controlar aquilo que sentimos, e isso pode ser desconfortável e/ou confuso. Noutros casos, passamos uma imagem (exterior) aos outros, diferente daquilo que sentimos (interior). Também avaliamos, na minha opinião erradamente, a aparência exterior dos outros através do nosso interior, comparando e desvalorizando os nossos talentos, por ex. se conhecemos alguém que tem uma bela casa, um emprego e um ordenado excelente, automaticamente assumimos, que essa pessoa é feliz e tem sucesso na vida. A realidade não bem assim.

 

Aquilo que gostaria de reforçar é a importância em ser honesto/a e verdadeiro/a com os nossos sentimentos, sonhos, paixões e desejos, sejam divertidos ou desconfortáveis. É importante valorizar o nosso interior emocional, como algo do qual aprendemos a aceitar, a conhecer e a respeitar. Não é novidade, que monitorizar os sentimentos dá trabalho, mais, os resultados não são imediatos e/ou gratificantes, todavia, aprendemos a sentir e a não fugir de nós. Negando, minimizando, mentindo quanto aquilo que somos sendo meio caminho para a desonestidade e da irresponsabilidade. 

 

Segundo a abordagem da psicologia cognitiva, aquilo que pensamos (Atitudes) criam os nossos sentimentos, que por sua vez afectam aquilo que fazemos (comportamentos). Atitudes + Sentimentos = Acções (comportamentos). Nós somos aquilo que fazemos com os nossos pensamentos.


O âmago dos sentimentos reside numa zona do cérebro chamada (Sistema Límbico). O modelo tríunico da estrutura do cérebro foi desenvolvido por Paul McLean. Este modelo, baseia-se em três partes;

 

1. cérebro reptiliano ou arcaico (instinto);

 

2. cérebro mamífero ou sistema límbico (emoção) e o

 

3. cérebro humano ou neocórtex (razão),

cada uma delas foi desenvolvida em alturas diferentes, ao longo da evolução do Homem e em varias centenas de milhões de anos. Também sabemos que ambos os Hemisférios do cérebro apresentam formas diferentes de pensamento – o hemisfério da esquerda é o intelectual, racional, analítico, objectivo. O hemisfério da direita é intuitivo, imaginativo metafórico, holístico[1], segundo estudos efectuados ao longo de 25 anos por Sperry e Ornstein.

Aprendemos a linguagem dos sentimentos ao longo da vida. Desde a nossa família, escola, pelo grupo de amigos até às pessoas mais significativas. A vida é o processo pela qual passamos, inevitavelmente, sendo o palco das nossas representações e da qual vamos adquirindo a experiência emocional e desenvolvendo uma musculatura suficiente capaz de nos manter em forma para o desafio seguinte, ou não. Por ex. quando experimentamos as vitorias e sucessos, as derrotas e as desilusões, as perdas e a dor. Por outro lado, também aprendemos, como mecanismo de defesa, (justificação, racionalização, maximização, minimização, projecção, etc.), a ignorar, a iludir e a ”fugir” das emoções negativas e desconfortáveis, tais como o medo, a dor, a perda, a vergonha, a mágoa e o remorso, a culpa. Esta constatação, não é uma critica sequer, são factos que correspondem à realidade. Como é do senso comum, nascemos com os sentimentos, mas não nascemos ensinados a sentir (regularização das emoções), aprendemos a observar e fazer, imitando, aquilo que observamos à nossa volta desde o nascimento e ao longo da vida. Na maioria dos casos, aprende-se mais com aquilo que se vê fazer do que se ouve dizer. Somos influenciados pelas pessoas, lugares e coisas à nossa volta.

Por vezes, a nossa cultura reforça este mecanismo de defesa e de ilusão na gestão dos sentimentos, quando por ex. nos homens desde cedo ouvimos, à nossa volta (família e na escola) algumas mensagens do tipo “ Homem não tem medo...”; “Homem não chora... senão é maricas”; “Homem tem que ser forte...”, etc. 

No caso da mulher aprende “As meninas tem de cuidar dos outros...." ignorando, por vezes, as suas necessidades; “Mulher tem de ser dona de casa”; “As meninas portam-se bem, não sentem raiva..." ou não se sentem impotentes perante os outros, " As meninas têm que se controlar e serem compreensivas...” sabemos também que na nossa sociedade se tolera melhor um homem bêbado, até revela um certo grau de machismo, caricato e algo “normal”, do que uma mulher.


O que é que os sentimentos têm a ver com a recuperação da adicção?

Na minha opinião, através da recuperação aprende-se a sentir e a fazer “ligação directa” aos sentimentos, no aqui-e-agora, sejam desconfortáveis ou de bem-estar. Não é possível usufruir da recuperação, sem permitir que os sentimentos sigam o seu fluxo normal, aquela parte de nós, tão preciosa e especial que foi negligenciada ao longo da adicção activa.  Os sentimentos é algo que não podemos continuar, por mais tempo, a negligenciar através das drogas ou de comportamentos adictivos, pois o processo activo da Adicção evita-se, a todo o custo, sentir, agir nos impulsos ignorando as  eventuais situações de risco e por vezes de perigo. Desenvolve-se, através da lógica adictiva, uma sensação de dormência emocional com substancias ou com outro tipo de adicções. Sabemos que alguns sentimentos, ou a incapacidade de identificar, estão fortemente relacionados com a adicção, evitando assim o confronto com a realidade. O adicto aprendeu a reprimir os sentimentos, a pensar em formas de controlar e a agir no prazer imediato (acting-out) ex. usar mais drogas e/ou álcool, mais comida, mais pornografia e/ou prostituição,mais uma ida ao casino. Este tipo de lógica adictiva reforça que o que importa é o agora/momento (prazer/”pedra”), evita-se planos a médio ou longo prazo, opta-se pelas promessas, porque a probabilidade os planos falharem é enorme. Evitam-se os compromissos responsáveis e as relações honestas.

 

Também sabemos que as substancias e /ou os comportamentos adictivos provocam a ilusão e a negação da realidade. O adicto vive num “mundo à parte”, de máscaras, onde aquilo que se sente não é revelado, mas escondido, “vida dupla”. É essencial ir removendo estes mecanismos de forma a assimilar e fazer a adaptação à realidade. Para se ser honesto e responsável pela recuperação individual, o adicto aprende a responsabilizar-se pelos seus sentimentos e comportamentos problemáticos e disfuncionais (adictivos) bem como estabelecer relacionamentos saudáveis com as outras pessoas baseados em princípios espirituais, não religioso sem dogmas e divindades, e valores morais e eticos. Por ex. “Não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti...


Aprende-se a distinguir os sentimentos dos comportamentos. Por ex. posso sentir medo, logo não significa que seja um fracassado, um incapacitado ou “maricas”. È Ok sentir, é normal e humano. Não significa que vamos perder o controlo das nossas emoções, pelo contrario, é sentir que nos conhecemos e exploramos as nossas potencialidades e recursos. Aprende-se a enfrentar a dôr e a perda (das drogas, do álcool, do jogo, do comida, das compras, do furto (shoplifting), das relações disfuncionais, do sexo e as sensações que estas experiências proporcionavam) com o apoio dos outros; pode afirmar “Não estou sozinho nestas emoções dolorosas e identifico-me com pessoas à minha volta.

Como posso identificar os meus sentimentos?

Não existem “receitas magicas” ou “milagres”. É necessário fazer um trabalho pessoal emocional (virado para dentro de si), de inter-ajuda e compromisso diário. É extremamente difícil enfrentar este desafio, com sucesso, caso o faça sozinho. Encontre pessoas disponiveis.

 

Dica:

 

1- Procure identificar o sentimento enquanto ele está a acontecer, no aqui-e-agora. Pergunte a si mesmo: Como é que me sinto agora? Estou triste? zangado? contente? confuso? feliz? ansioso?

 

2- Admita o sentimento.. Desenvolva a introspecção, discernimento e o auto-conhecimento. Lembre-se, é OK sentir. Nos sentimentos não existe certo ou errado ou qualquer tipo de moralismo. Evite julgar ou criticar o sentimento. "Qual o sentido deste sentimento? Porque é que estou a sentir ........... (sentimento)?"

 

3- Identifique a “fonte” a “raiz” do sentimento. Desenvolva a autoconsciência e a responsabilização. "O que é que está a provocar este sentimento?"

 

4- Partilhe com alguém de confiança e disponível os seus pensamentos e sentimentos. Alguém que tenha a capacidade em ouvir activamente. Evite julgar ou criticar os sentimentos.

 

5- Aprenda a gerir as emoções de uma maneira construtiva. Mobilize as suas emoções ao “serviço” de uma causa humana e espiritual imaterial e individual, não religioso sem dogmas e divindades (nós e Ele/Ela ou Algo que o transcende, que o surpreende, o inspira, que o motive, que o liberte, que o orienta nos momentos complexos do devir e o aceite como é).

 

6- Reconheça e valorize os sentimentos dos outros. Desenvolva a empatia, espontaneidade, honestidade, a reciprocidade e a autenticidade.

7- “Mais será revelado...e mais além”

 

[1] "Provém de holos em grego que significa totalidade. É a compreensão da realidade que articula o todo nas partes e as partes no todo, pois vê tudo como um processo dinâmico, diverso e uno".

 


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