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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

A adicção activa e a preparação para a mudança

  

 

 Sou um “deslumbrado” pelo comportamento humano e os comportamentos adictivos, em particular. Como profissional, obviamente aprendo com aqueles que procuram ajuda…a verdadeira (a mudança) – “escola da vida”. Refiro-me às competências individuais, sociais e espirituais, não religioso sem dogmas e divindades, em lidar com a adversidade, a imprevisibilidade e a impotência (doença da adicção). Apesar das diferenças da personalidade, existem valores morais e espirituais, não religioso sem dogmas e divindades, que nos unem e nos tornam flexíveis e mais corajosos nos momentos mais criticos do devir. Somos seres gregários, precisamos uns dos outros e o que aprendemos hoje pode não se aplicar amanhã. Estamos em mudança permanente.

Para um indivíduo com comportamentos adictivos (drogas lícitas, incluindo o álcool e as ilícitas, jogo, distúrbio alimentar, relações de dependência emocional, codependência, sexo, compras compulsivas - shopaholics, shoplifting - furto) aceitar ajuda profissional é o resultado de um estado de sofrimento, desgaste físico , emocional e espiritual progressivo e profundo – sente-se um falhado/a, desconfiado, angustiado, isolado e sofre de níveis altíssimos de desilusão. Sofreu um processo degradante transformador, como costumo afirmar, a escala de valores foi invertida, em vez de o individuo se valorizar; auto destroi-se. Em muitos casos, o adicto/a nem se apercebe dessa mudança disfuncional. Aquilo que criticou e julgou nos outros; acabou por fazer o mesmo ou pior. o adicto perdeu o controlo dos seus sentimentos e comportamentos, perante si próprio, as outras pessoas significativas (ex. filhos/as, amigos, colegas de trabalho, família) e necessita de ser salvo e removido à sanidade. Imagine-se num barco em alto mar, de repente começa a afundar, e você está sozinho, mesmo sendo um marinheiro experiente e orgulhoso (muitos adictos/as no activo[i] são indivíduos com imensa experiência e orgulho) precisa de ser ajudado e salvo, o mais rapidamente possível de forma a conseguir sobreviver.
 
Somos os nossos próprios “espectadores” no palco da vida
 
Nesta experiencia dolorosa o ego que “abandona o barco”, assim como a grande maioria das nossas habilidades o adicto no activo sente-se angustiado, assustado, frustrado, desiludido e impotente - HELP – SOSA ajuda surge e o adicto/a desesperado “agradece a oportunidade” com uma sensação de alívio enorme – exclama “Afinal, sobrevivi a este inferno....”  Após iniciar o processo da ajuda e de recuperação aprende com o tempo, e mais uma vez com frustração, que o problema reside dentro de si, não nas pessoas, lugares ou coisas à sua volta. Questiona-se:“Mas afinal…que fiz de errado para merecer isto? Porquê eu…?” Nesta fase questiona-se e procura culpados para a causa do problema. Sim, aprendeu que, como se sente uma vítima devem existir culpados. Quem são eles? O pai? A mãe? Ambos? A mulher/marido? A namorada/o? A doença? A pressão no trabalho? A localização geográfica? O patrão? Os amigos/as?

Gostaria de salientar um episódio recente de uma pessoa que procurou a "verdadeira" ajuda. Durante a quarta sessão/consulta reconheceu com surpresa que a raiz dos seus problemas (adicção), não era uma consequência e ou culpa dos outros (pessoas, lugares e coisas), mas do seu comportamental disfuncional e de algumas “velhas e poderosas e de crenças/mitos/ fantasias e factores fisícos/neurológicos que reforçavam o consumo de substâncias psicoactivas.
 
Após a constatação desta realidade, surge a motivação para a mudança. A experiência empírica assume um papel preponderante na contemplação e na selecção de novas medidas cognitivas, comportamentais e espirituais, não religioso sem dogmas e divindades. A “velha” e familiar desilusão e negação transforma-se em motivação. Renasce a esperança para enfrentar o desconhecido. Graças à transformação inicia-se o processo criativo, intuitivo e contempla-se a mudança. “E se conseguir provar a mim e aos outros que até consigo mudar?!” 

Todavia, neste processo complexo de avanções e recuos existe a ambivalência para a mudança que é perfeitamente normal e humano. A ambivalência é “Será que sou capaz de mudar?...E se falhar mais uma vez? Vou sentir-me deprimido e desiludido. Acho que não consigo suportar a dor…assim é melhor voltar ao prazer imediato e à zona de conforto.”
Para o adicto/a no activo é um desafio gigantesco abdicar do sistema de recompensas disfuncional e adictivo, mesmo negativo e doloroso é familiar (estilo de vida centrado na adicção). Mesmo disfuncional satisfaz (prazer imediato). Como o fumador que deixou de fumar há 6 meses, um dia vai jantar com os amigos e decide voltar a fumar, só um “cigarrinho”. Afirma “Só mais um…”. Mesmo que os seus amigos critiquem a sua decisão, nada o demove. É humano, mais uma vez, você acredita naquilo que é familiar e conhecido. Salvo excepções, qualquer pessoa não muda de um dia para o outro.
 
A motivação é como uma parede que se constrói - Tijolo a tijolo.
 
Após uma fase de “negociação” e “confecção do menu” rico em ideias, escolhas, valores morais e espirituais, não religioso sem dogmas e divindades, o adicto decide arriscar e “dar um salto” no desconhecido fora da zona de conforto (trabalho interior). Não procura os culpados, procura identificar as barreiras, que o manteve doente, os recursos e as competências individuais, sociais e espirituais.
Descobre um aliado espiritual (neutro e imaterial, uma crença individual espiritual, não religioso sem dogmas e divindades) que não “exige” obediência cega, não castiga, não humilha, assim como não exige a perfeição/redenção (cura imediata como se tratasse da eliminação de um vírus através de uma vacina). O aliado/a tolera, ouve (activo) e é genuíno e manifesta-se nas conexões com as outras pessoas significativas. Afinal, e apesar de toda a negação e descrença/angustia pessoal, vale a pena acreditar e voltar a sonhar. O Adicto estabelece um vínculo (dinâmica na relação entre duas pessoas, onde uma delas aparenta ser genuína e estar comprometida – empatia) capaz de gerar motivação, “veículo” essencial para a mudança.
Gostaria de realçar que a preparação para a mudança é um processo de avanços e recuos. Antes da mudança, é necessário ser o espectador do processeo da mudança e visualizar os prós e os contra. Preparar o "terreno" e criar perspectivas realistas de forma a consolidar e a manter o “espírito aberto e flexível” aos novos desafios e à adversidade da vida, assim como a capacidade em sonhar/ambição.

 O pescador naufragado, apesar da experiência traumática e dolorosa que passou durante os meses “abandonado e impotente”, vulnerável aos elementos, sabe que a segurança encontra-se no porto, todavia para pescar precisa de arriscar, confiar e dirigir-se novamente ao alto-mar. Melhor equipado e mais preparado. Para mudar, é necessário ter o desejo sincero.
 
Tijolo a tijolo a motivação pode ser o cimento que sustenta a parede. Afinal, recuperar da adicção é um novo e duradouro estilo de vida. Os meus agradecimentos aqueles que conheci nos dias mais atribulados das suas vidas que me ensinam a humildade, a resiliência e a confiança.
 
 
 
 
 

[i]  Adicto no activo – Significa que o individuo é afectado pelos sintomas da doença (perda de controlo, a adicção é o problema e a preocupação nº 1 na sua vida, obsessão e compulsividade).
 

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