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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

"Tal pai, tal filho" mas com rumos diferentes

Um garoto, a que vamos chamar Júlio, de 15 anos, quando conversava evitava o olhar e falava muito baixo, todavia, era muito doce e muito forte. Morava num bairro social, num T1, no mesmo prédio  mas em dois andares diferentes. No primeiro andar morava a avó que padecia de cancro, em fase terminal, no rés-do-chão morava o pai alcoólico com um cão. Todos os dias, o rapaz levantava-se muito cedo, tratava da casa, preparava o almoço, depois corria para a escola onde era um óptimo aluno, mas muito solitário. Ao final da tarde e de regresso a casa, fazia compras, não esquecia de levar o vinho, lavava o T1 onde o pai e o cão tinham feito porcarias, vigiava os medicamentos, dava comer à pequena família, depois à noite, quando a tranquilidade regressava, oferecia a si mesmo um instante de felicidade, estudava.

 

Um dia, o Julio foi convidado para participar num projecto entre turmas na escola. Ele, dois colegas e o professor estiveram a falar sobre o assunto. Após a reunião, voltou para casa, para as suas duas divisões caóticas, deslumbrado e aturdido de felicidade. Era a primeira vez na vida que lhe falavam amigavelmente, que o convidavam para tratar de um assunto insignificante e abstracto, tão diferente das provações incessantes que enchiam a sua vida quotidiana. Esta conversa (reunião) insignificante, para um jovem de um ambiente familiar normal, adquirira para o Júlio um deslumbramento muito especial e distinto. Afinal, era possível conviver e fazer parte das coisas normais e abstractas. Passados uns anos, antes do exame final do 12º ano, o Júlio, exclamou “Se por desgraça, passar no exame, não poderei abandonar o meu pai, a minha avó e o meu cão.

 

Recordo outro indivíduo a que vamos chamar de Mário, 40 anos, alcoólico e dependente de drogas desde longa data, pai solteiro de duas filhas jovens, que não conhece, vive com a sua mãe de 80 anos, num bairro social, num T1, mais dois irmãos, um de 35 e o outro de 38 também dependentes de drogas e álcool, não sabe ler e escrever e apresenta sérios problemas de saúde consequência da dependência (no fígado). O seu pai morreu, com uma cirrose no fígado, vítima do alcoolismo. O Mário, não completou a primeira classe, como não tinha “jeito” para estudar, foi trabalhar na construção civil, com o seu pai. È um individuo de tracto dócil, simpático e sempre esteve disponível para ajudar os outros.

 

 

Hoje o Júlio, com 40 anos, é professor universitário e o Mário, 40 anos, está dependente de álcool e outras drogas. O rumo de vida foi diferente para estas duas crianças, ambas oriundas de famílias afectadas pela Adicção activa (Alcoolismo). Talvez por ironia do destino cruel, tenha determinado um rumo diferente, no caso do Júlio. Depois de passar no 12º ano, um dia o cão fugiu para a rua, o pai alcoolizado perseguiu-o, cambaleante, e foi atropelado por um automóvel, uns dias depois a avó faleceu no hospital de cancro. Liberto das suas obrigações familiares, disfuncionais, conseguiu reunir os recursos (externos) e competências (internas) que lhe permitiram moldar o temperamento doce, mas resistente, perante as agressões da sua existência, mas determinantes no trajecto da sua vida.

 

O Mário dependente crónico de substâncias psicoactivas, ainda permanece “agarrado” ao sistema caótico e disfuncional familiar, no mesmo T1, apesar do seu trato dócil, simpático e disponível para ajudar os outros. Começa a beber de manhã, para “sossegar” os tremores das mãos e de tarde dorme para apaziguar os seus “fantasmas”, perdeu a esperança quanto a um projecto de vida, incapacitado psicologicamente, pelos efeitos negativos do álcool e drogas, e estigmatizado pela sociedade, como um “caso perdido” e cuja profecia popular determina “Coitado, vai-lhe acontecer o mesmo que ao pai.”

 

A criança e a tradição da “Sopa de Cavalo Cansado”

Esta pequena história revela um fenómeno, negligenciado e ignorado, em Portugal, que considero preocupante. Refiro-me aos filhos/as de pais dependentes de substancias psicoactivas licitas, incluindo o álcool e/ou as ilícitas. Se o alcoolismo é um problema de saúde pública quantas crianças são vítimas deste flagelo? Estas crianças, oriundas de famílias desestruturadas e disfuncionais, são negligenciadas visto o tratamento contemplar e estar direccionado, somente aos pais dependentes. Muitas destas crianças são vítimas de abuso físico, emocional e sexual.

 

Em vários estudos, nos EUA, sobre o fenómeno da família afectada pela Adicção das Substancias psicoactivas, a ciência confirma, ao contrário do que era conhecido anteriormente, e apesar da vulnerabilidade genética, que algumas crianças oriundas de famílias desestruturas e disfuncionais afectadas pela adicção activa, possuem recursos internos, mas para isso precisam de ser apoiadas e orientadas, de forma a conseguirem “sobreviver” à adversidade. No caso do Júlio, ao contrário do Mário, a ironia do destino encarregou-se de alterar o percurso disfuncional.

 

Em 2011, ainda subsiste a crença popular “Tal pai, tal filho” ou “Ele/a é assim porque sai à família”. Por outro lado, não há muito tempo, creio até aos anos 70, algumas crianças, eram alimentadas desde muito cedo, pelas “sopas de cavalo cansado” cujo ingrediente principal era o álcool (Droga).

Será que esta “tradição”, associada à cultura que bebe, ainda teima em existir e a fazer vítimas, de abuso e negligencia, entre as crianças mais vulneráveis e sem recursos, nos dias de hoje?

Existem estudos, efectuados por instituições e/ou profissionais do conhecimento publico, sobre este tipo de abuso (flagelo) em Portugal? Quantas crianças e/ou famílias são afectadas pelo alcoolismo?

 

Sabe-se que o abuso do álcool, alcoolismo e a codependência (ver link: codependência) estão associados à violência doméstica. O fenómeno do abuso de drogas ilícitas, por ex. cannabis, após aproximadamente de 30 anos de existência e de luta contra as droga, faz parte integrante do convívio social, entre um grupo significativo de portugueses, adolescentes e adultos, onde se definem, no horizonte, perspectivas de legalização. O abuso do álcool (droga licita) é legal, a partir dos 16 anos, é também um fenómeno transversal, na nossa sociedade, onde é tolerado e negligenciado pelos políticos, pela ordem dos médicos e ordem dos advogados, por ex. a publicidade de bebidas alcoólicas associadas ao desporto, as técnicas agressivas de marketing cujo target são os jovens, novos consumidores, de forma a se fidelizarem à marca, para o resto da vida.

Na minha opinião, como profissional, o álcool e o desporto não se “misturam”, por mais que a publicidade, as leis e os políticos e alguns profissionais de saúde, assim consintam e ou determinem. O Mundo dos Adultos não é seguro para algumas crianças vulneráveis.

 

Para terminar, são urgentes medidas de prevenção e apoio (governo, associações, instituições, profissionais e equipas multidisciplinares) de forma a avaliar e identificar o fenómeno, junto das famílias dos dependentes, assim como a sua participação activa no plano de tratamento. Recuperar É Que Está A Dar

 

Siga o links:

Efeitos da dependência das substâncias psicoactivas (Drogas).

http://recuperarequeestaadar.blogspot.com/2007/07/efeitos-da-dependencia-quimica-e.html

Codependência

http://recuperarequeestaadar.blogspot.com/search/label/codependencia

 

 

Nota: Os verdadeiros nomes dos intervenientes, desta historia, foram modificados de forma a manter o seu anonimato.

 

 

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