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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

"Desapego Emocional com Amor" um novo significado por Rosemary Hartman


 


“Uma das grandes dádivas sobre a recuperação assenta no conceito de - Desapego Emocional com Amor”.

Originalmente, este conceito foi utilizado para descrever a forma como um membro de família se relacionava com o familiar alcoólico; actualmente o desapego emocional com amor é uma “ferramenta” útil para qualquer tipo de relacionamento intímo disfuncional.

Este conceito pioneiro foi desenvolvido nos grupos de ajuda-mutua, dos Al-Anon, familiares e ou pessoas significativas (ex. esposas ou mães) que tinham relações com alcoólicos na família. A ideia-chave, segundo o Al-anon, prende-se com a premissa de que o doente alcoólico não aprende com os seus erros e consequências se for protegido e encoberto pelos outros, não alcoólicos.

Dentro deste contexto o significado das palavras protecção e encobrimento podem ter imensos significados. Por ex. telefonar para o trabalho do marido inventando uma mentira, porque ele está na cama demasiado intoxicado (alcoolizado). Protecção significa, um familiar dizer à criança que a sua mãe (alcoolica) não foi à festa da escola, porque esteve a trabalhar até tarde, quando na verdade, ela esteve no bar à noite e não conseguiu levantar-se da cama para trabalhar e estar presente na festa da escola.

Costumamos classificar este tipo de comportamentos, como facilitador, porque permitem (facilitam) os doentes alcoólicos continuar a beber, sem a devida adptação às consequências do alcoolismo. Hoje aplicamos a palavra adaptar porque o sentido é menos depreciativo.

No principio, o Desapego Emocional com Amor, era uma chamada de atenção, para os membros de família deixarem de se adaptar ao caos e às crises constantes, nas vidas dos doentes alcoólicos. Conforme o Al-Anon crescia, houve uma interpretação pervertida na forma como se utilizou o desprender emocionalmente com amor, na realidade o objectivo principal consistia em assustar o doente alcoólico, de forma a gerar pressão para ele mudar de comportamento. Por ex. “ Se não fores para tratamento, vou já sair de casa e quero o divórcio!”. Tais ameaças, faziam parte de um jogo, em que o factor medo, forçava o doente alcoólico a pedir ajuda.

Durante anos, o conceito de Desapego Emocionalmente com Amor, foi aplicado de uma forma pervertida e falsa. De facto, ainda acontece nos dias de hoje. Por exemplo quando contactam Hazelden (Centro de Tratamento em Center City, Minnessota, EUA) e perguntam-nos “ Se a pessoa que amo continuar a beber ou a usar outras drogas, será que a devo abandonar...e sair de casa?!” Em vez de responder directamente á pergunta, a minha resposta, é questionar os membros de família a reconsiderarem o conceito de desprender-se emocionalmente com amor. Significa reformular algumas questões:
Quais são as suas necessidades para além das necessidades do doente alcoólico? Como pode tratar dos seus próprios problemas e das suas próprias dificuldades se a pessoa que ama não quiser aceitar a sua ajuda?!

Desapego Emocional com Amor é permitir que a outra pessoa aprenda com os seus erros e consequências do seu próprio comportamento. Desapego emocional com amor também significa, ser responsável pelo seu próprio bem-estar e tomar decisões no dia-a-dia sem outros motivos subjacentes, por ex. desejar controlar as atitudes e comportamentos das outras pessoas. De qualquer forma e sem margem de duvida, somos impotentes para mudar as outras pessoas. Muitos familiares, de dependentes substâncias psicoactivas lícitas, inlcuindo o alcool e as ilícitas, durante longos períodos de tempo tentaram mudar os comportamentos adictivos, sem resultados. Podemos estar envolvidos emocionalmente com as outras pessoas, mas na realidade, não as podemos controlar. Simplesmente, não conseguimos impedir que os outros façam coisas que eles decidem fazer.

Compreendido desta forma, o Desapego Emocional com Amor, vai deixando as “sementes” da recuperação. Quando existe a recusa em assumir a responsabilidade pelo comportamentos de pessoas doentes alcoólicos ou com outras drogas permitimos que essas pessoas enfrentem as próprias consequências naturais do seu comportamento disfuncional. Se uma criança perguntar a um membro da família, "Porque é que a mãe não foi à festa da escola?", não precisa de mentir. Pode responder, “ Não sei porque é que ela não foi à escola. É melhor perguntares à tua mãe.”

Talvez a essência do conceito de desapego emocional com amor, consista na possibilidade de se fazer escolhas, profundamente construtivas, em vez de reagir a impulsos, com ansiedade. Quando ameaçamos deixar alguém, normalmente estamos ligados emocionalmente a essa pessoa. Reagimos com base nas nossas emoções desconfortáveis e dolorosas. Dizemos coisas para melindrar e chocar. As nossas palavras saem sem se pensar, em vez de pensar naquilo que se diz.

Desapego Emocional com Amor proporciona escolhas centradas na solução do problema - uma delas é responder com bom senso em vez de se responder com ansiedade extrema. Por ex. enquanto pais (progenitores) delineamos limites para os nossos filhos, mesmo que esses limites provoquem sentimentos de raiva e/ou frustração. Com base nas experiências e nas reacções imediatas das crianças , escolhemos aquilo que é melhor para eles a medio e a longo prazo.

Neste sentido, quando nos envolvemos emocionalmente com alguém (familiar, amigo adicto/a activo e ou sóbrio) aplica-se o Desapego Emocional com Amor. A chave deste comportamento baseia-se no principio de ser responsável para com o outro, para com o nosso próprio comportamento e parar de ser responsável pelo outro“
Rosemary Hartman, supervisora do Programa para as Familias em Hazelden, Center City, Minnesota, EUA

Site Al-Anon: http://www.al-anon.org.br/default.asp

Comentario:
Tal como já foi referido no texto, pela sua autora, gostaria de reforçar a importância do Desapego Emocional com Amor nas relações intímas do dia-a-dia (entre pais e filhos, marido/mulher, namorado/a). Ao longo da minha experiência profissional acompanhei pessoas/relações extremamente disfuncionais onde não existiam limites, por ex. controlo, manipulação, intimidação, mentira, agressividade, desonestidade e ansiedade extrema. Vive-se centrado no problema, a obsessão, a culpa, vergonha, raiva e medo. Todos se culpam uns aos outros. A vida gira em torno dos mesmos problemas, nos relacionamentos, visto não haver limites são vitimas uns dos outros (sistema disfuncional). Às vezes parece ser benéfico, para algumas pessoas, viver em função dos problemas dos outros, porque assim não precisam de olhar para as próprias atitudes e comportamentos disfuncionais e controladoras.
Recordo-me de um dia uma mãe contar que no meio da confusão e desespero decidiu experimentar a droga que o filho andava a consumir. Afirmou “ Ó João Alexandre, queria experimentar a sensação e aquilo que ele sentia!!!...”
Porque que é culpamos os outros na nossas relações significativas? Invadimos os limites das outras pessoas e/ou somos invadidos (limites) pelos outros. Injustiça? Desilusão? Frustração? Na realidade, sabemos que não controlamos os outros. A quem é que permitimos que controle as nossas próprias vidas? Para o bem e para o mal. Então porque acreditamos que temos o direito de controlar a vida dos outros?

O Desapego Emocional com Amor centra-se na solução do problema. Permite tomar decisões construtivas e gerir conflitos baseadas na nossa capacidade de lidar, de uma forma responsável e honesta, com as nossas próprias emoções/sentimentos (atitudes e comportamentos). Promove a auto-estima, o respeito próprio e também o respeito pelas decisões das pessoas significativas. Quem não gosta de ser surpreendido por alguém próximo, quando este afirma “ Olha, eu já consegui vencer aquele problema pela qual estava a ser atormentado”

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