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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

As 10 desculpas mais frequentes

Quem é gosta de ser confrontado? Ninguém gosta de ser contrariado. Por exemplo, quando alguém é confrontado devido à descoberta de uma mentira ou erro que tenha cometido, qual é a primeira reacção? Negar a realidade. Apesar de haver algumas diferenças, nos comportamentos adictivos o fenómeno é semelhante, um individuo adicto que seja confrontado, pelas consequências negativas da sua adicção, irá responder de uma forma defensiva, esquiva ou omissa. Irá negar qualquer evidência, facto ou realidade.

Irei expor aquelas que são as 10 desculpas mais frequentes identificadas no discurso de indivíduos adictos quando são confrontados e/ou convidados a falar abertamente sobre as consequências da adicção. Gostaria de acrescentar que estas desculpas, mecanismo psicológico de defesa (lógica aditiva), são observadas em vários tipos diferentes de adicção (substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas, jogo, sexo, compras, dependência emocional, distúrbio alimentar). Gostaria de acrescentar o seguinte, este tipo de discurso também é identificado em alguns membros da família do individuo adicto.~

 

Nº 1 – “Não tenho nenhum problema com o meu comportamento.”

Esta é das afirmações mais comuns e aquela que considero a mais frequente. O individuo adicto não reconhece e ou admite qualquer problema e/ou consequências negativas da adicção. Nesta fase o individuo avalia os efeitos obtidos através das substâncias e/ou comportamentos, como algo positivo e inócuo, contribuem como um reforço da lógica para continuar os mesmos comportamentos; “Se está tudo bem porque é que hei-de parar?”

 

Nº2 – “O meu problema não é assim tão grave, o dos outros é pior. Eu sou diferente e posso parar quando quiser”

Apesar das crises em casa, no trabalho, na saúde (doença) e acidentes o individuo adicto continua a afirmar que consegue parar, e por vezes, é tão categórico nas suas convicções que é capaz de arranjar argumentos que convencem e confundem a esposa/o, as crianças, a família, o patrão/colegas; o individuo também acredita nas suas afirmações. Alguns membros de família afirmam “João Alexandre, ele/a dizia que ia parar, e fazia promessas. As nossas discussões eram de tal angustiantes que eu (mãe, pai, esposa, patrão) algumas vezes achei que estava a ser injusta e cruel para com ele/a.  Nos últimos tempos, praticamente ele fez dezenas de promessas, que eu acreditava nas suas palavras, mas na realidade, ele não conseguia cumprir. Cheguei a pensar que estava a ficar doida e a questionar a minha própria sanidade. ”

 

 

Nº3 – “Eu consigo controlar…”

Tal como com as outras afirmações, esta desculpa também é muito vulgar, no léxico dos indivíduos adictos. Queremos exercer poder para controlar as nossa vida, dependemos desse controlo. Normalmente, esta afirmação surge como uma justificação para algo de anormal (crise aguda) que tenha acontecido e que esteja relacionado directamente com as consequências da adicção. Por exemplo, um familiar confronta o individuo com uma mentira ou uma promessa que tenha sido quebrada, ou um segredo que tenha sido descoberto:

Substâncias psicoactivas, vulgo drogas:

parafernália relacionada com o uso de drogas lícitas, incluindo o álcool – garrafas escondidas, e/ou ilícitas.

Comportamentos adictivos:

gastar o ordenado ou o orçamento familiar no jogo.

pornografia na internet.

utilização excessiva do cartão de credito em compras.

pequenos furtos no hipermercado, no local de trabalho, em casa.

o dependente emocional reconhecer que a sua vida está caótica, mas que consegue a negar as evidencias.

 comportamentos purgativos e/ou dietas restritivas do individuo com distúrbio alimentar.

Frequentemente, o individuo afirma “Eu prometo que nunca mais acontece…vou controlar a situação.”

 

Nº 4 – “O meu problema não é assim tão grave, porque ainda consigo trabalhar.”

Esta desculpa está associada ao estigma social associado aos comportamento adictivos, em particular, às dependências das substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, e/ou ilícitas, vulgo drogas. Existe um estereotipo, que na verdade é um mito, de que o individuo alcoólico e/ou dependente de drogas é um marginal, um arrumador de viaturas, um tipo sem força de vontade e um falhado; um individuo alcoólico é um tipo que frequenta os bares e tabernas e que bebe durante todo o dia, assim como o dependente de drogas ilícitas é um individuo marginal, recluso e anti-social. Na realidade, este estereótipo não corresponde à realidade. Qualquer pessoa, dos mais variados estratos sociais pode desenvolver uma dependência; medico, engenheiro, advogado, policia, padre, etc. Mais uma vez, um numero considerável de indivíduos dependentes de substancias e/ou outros comportamentos adictivos (jogo, sexo, dependentes emocionais, distúrbio alimentar, compras e roubo) utilizam esta desculpa com frequência.

 

Nº5 – “Não estou a magoar ninguém; o único prejudicado sou eu”

Esta desculpa, o individuo admite que tem um problema de comportamento, mas nega qualquer evidência sobre as consequências da sua adicção na família, incluindo as crianças, colegas de trabalho, etc. O seu desenquadramento com a realidade da adicção, é reforçado com a minimização dos danos e com a noção do controlo. Por vezes, e apesar do desgoverno na sua vida, o individuo afirma que, apesar de ser adicto, é um bom pai/mãe, esposo/a, membro da família. Na realidade, sabemos que a adicção afecta e compromete os laços, os afectos e a qualidade do relacionamento com as outras pessoas.

 

Nº6 – “As crianças não se apercebem do meu problema

Esta desculpa é frequente quando existem crianças na família. É muito frequente ouvir afirmações “Apesar do meu problema, as crianças nunca foram afectadas pela minha adicção porque são muito pequeninas. Não têm a noção do que se passa” Mais uma vez, estas desculpas, não correspondem à realidade, porque as crianças apercebem-se da indisponibilidade do pai/mãe, apercebem-se dos conflitos (separações/divórcios) entre os adultos da família e por vezes, são extremamente protectores dos pais adictos (doentes), porque apercebem-se da sua debilidade física e/ou emocional.

 

Nº7 – “O meu problema  é causado pelo tipo de pessoas com quem me relaciono.”

Esta desculpa é utlizada pelo individuo doente, e em alguns casos também reforçada pela (ignorância) família, cujo intuito visa a desresponsabilização do problema e das suas consequências; o individuo doente joga o papel da vítima inocente e piedosa. Mais uma vez, existe a tendência, derivado à falta de informação sobre a natureza da adicção, em se culpar os outros; o marido que não é amável e carinhoso, da esposa que esconde (segredos) e/ou ignora, da mãe que culpa os amigos, culpa-se o patrão e/ou o trabalho stressante, etc. Esta desculpa permite a progressão da doença (agudização dos sintomas) porque se procura um culpado/a (bode expiatório), quando na realidade nada muda (na adicção não existem culpados); o agente de mudança é o individuo doente e precisa de apoio a fim de se motivar para aceitar a ajuda. Em algumas situações a família também precisa de apoio de forma a quebrar a barreira da negação. Não é por ser doente que é tratado de maneira diferente; precisa de se responsabilizar pelas consequências do seu comportamento.

 

Nª8 – “Tenho um problema porque sou doente”

Esta desculpa surge como um sintoma da ambivalência, do estigma, da vergonha e da negação associados aos comportamentos adictivos. O individuo considera que é “um caso perdido…”. Considera que é dependente porque teve azar na vida e não acredita que exista uma solução para o seu problema. Em algumas situações, a própria família, derivado à sua impotência, acredita que não é possível fazer nada “Ele/a é assim…é uma cruz que temos que carregar. Não podemos fazer nada.” Estas dinâmicas na família reforçam a disfuncionalidade na hierarquia, nos limites, nos papéis que cada um desempenha e nos afectos. Consideram-se “apanhados na rede”; adoptam a regra do silêncio – não se fala, não se sente e não confia. Em alguns casos, o individuo considera, erradamente, que os sintomas da adicção são sintomas de outro tipo diferente de patologia; depressão, ansiedade e/ou azar na vida, etc. Nestes casos, a progressão da adicção precisa de ser avaliada (patient placement criteria) por profissionais competentes.

 

Nº9 – “Se a maioria das pessoas tivesse os mesmos problemas que eu tenho na minha vida, de certeza que também iriam ter problemas idênticos.”

Esta desculpa é utilizada, pelo individuo, como forma de negar, por vezes inconscientemente, a natureza (condição) da adicção; afirmando “Sou adicto/a porque tenho imensos problemas que não consigo resolver”. Realidade: Ninguém escolhe ser adicto e não é um acto voluntario, assim como, ninguém escolhe ter problemas, simplesmente acontecem. O individuo adicto justifica, a progressão e as consequências da sua adicção, com os problemas e adversidades que a maioria das pessoas que não tem problemas de adicção. Os problemas do dia-a-dia são um reforço na lógica adictiva, isto é, se ele/a tem problemas no trabalho, em casa com a esposa/o, problemas de saúde, desemprego, separação, divorcio, crise encontrou uma justificação plausível para consumir/abusar de drogas, incluindo o álcool, ou prolongar indefinidamente os comportamentos adictivos a fim de ficar anestesiado/a e evitar a dor (fuga dos problemas). Como não é possível e/ou realista, no dia-a-dia, não haver problemas e/ou adversidades, o individuo adicto desenvolveu uma justificação (vitimização) para prolongar a adicção; “Como é possível interromper as dependências se tenho imensos problemas na vida?” O individuo não reconhece que a maioria dos seus problemas actuais podem ser uma consequência, directa e/ou indirecta, da adicção. Na realidade, a maioria das pessoas gere e enfrenta os seus problemas diários, sem que para isso seja necessário (prioritário) recorrer a drogas lícitas, incluindo o álcool, e/ou comportamentos (jogo, sexo, distúrbio alimentar, compras, furto, dependência emocional).

 

Nº10 – “Tenho alguns problemas de comportamento, mas não sou o/a culpado/a.

Esta afirmação o individuo considera que o seu problema de adicção é causado pelos outros, lugares ou coisas (relação causa-efeito). Dada a falta de informação sobre a natureza da adicção e reforçado pelas dinâmicas da família, existe a tendência para se encontrar um culpado. As pessoas acreditam que, assim conseguem encontrar a solução para o problema. Qualquer contrariedade e ou problema na sua vida, é uma justificação, perfeitamente legitima, no seu entender, para recorrer aos efeitos anestesiantes, sejam oriundos das substâncias psicoactivas e/ou comportamentos adictivos, a adicção funciona como um tipo de auto medicação. O individuo considera, erradamente, que a adicção é um sintoma de outro tipo de problemas/doença. Culpabiliza a família, o emprego, o patrão, a mulher/marido, a crise, etc.

Estas desculpas podem ser reforçadas naqueles indivíduos que apresentam vários tipos de adicção, por exemplo adicto a drogas e ao jogo ou adicto a drogas e distúrbio alimentar.

 

Quem gosta de estar doente? Quem gosta de perder o controlo da sua vida? A adicção (substâncias psicoactivas e comportamentos adictivos) é uma doença, aparentemente sem sintomas, na realidade são negados, a fim de progredir e ser legitimada, desta forma o individuo perde a capacidade critica, tomar decisões construtivas e saudáveis; o prazer repetitivo de uma hora justifica o sofrimento de horas, semanas, meses e anos. A adicção, no individuo, acaba por ser um estilo de vida e o seu problema numero um (primário); “Sou assim. Ninguém tem nada com isso.”

 

 

 

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