A recuperação da adicção para a vida

Sendo a adicção às substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o alcool, e/ou ilícitas, uma doença do cerebro sabemos que o consumo de drogas afecta seriamente o funcionamento normal do cerebro (neuroquimica/neurotransmissores - ex. libertação anormal de dopamina) conduzindo o adicto na senda da gratificação imediata, aquela sensação de preazer e/ou bem estar unica capaz de modificar e o atenuar (adormecer) as emoções dolorosas do dia-a-dia, por ex. fracasso ou rejeição numa relação de intimidade, o despedimento, a perda de alguém significativo, cansaço fisico e/o a sensação de perda de energia, ansiedade e/ou sentir-se deprimido, etc. Aprende-se a oscilação das emoções e descobre-se um mundo de novas experiências sensacionais e unicas com drogas.
Ao interromper a progressão da adicção activa, o período inicial de abstinência total às drogas, incluindo o álcool, as principais prioridades passam por se manter “limpo” de drogas, a todo e a qualquer custo. Depois, aprender o conceito de doença, aderir à abstinência (responsabilização e participação activa), fazer novos amigos, reencontrar o lugar na família por ex. reparar danos consequência do passado disfuncional, identificar e reaprender a lidar com emoções (tais como; raiva, medo, vergonha e culpa, ressentimento) de uma forma construtiva, por ex. não agir nos impulsos, prevenção da recaída e viver um dia de cada vez. Todo este processo, leva aproximadamente cinco anos, exige muita responsabilização, compromisso e motivação da parte do adicto. Ninguém o pode substituir neste “trabalho” e desafio individual.
Para um adicto no activo consumir drogas, incluindo o álcool, pode ser um “hobbie” extremamente absorvente, pode passar 7 dias por semana/365 dias por ano a pensar como obter e consumir substâncias, é a prioridade numero um da sua vida. O objectivo é consumir drogas, incluindo o álcool, sem olhar aos meios, se for necessário magoar, agredir, mentir, roubar, manipular pessoas queridas. A obsessão e a compulsividade da adicção exige que assim seja, nada é suficiente importante que o impeça o adicto de o fazer.
No inicio da abstinência também se aprende a dar um passo de cada vez. Em muitos casos, precisa-se de apoio e orientação da família, apoio profissional, económico e/ou pessoas significativas (amizades genuínos) de forma a se “elevar o olhar” e encarar os erros do passado de frente, com determinação e positivismo. Muitos adictos, incluindo a família, cujo ambiente se encontra disfuncional, “doente”, re-começam da “estaca zero”. Todos foram “apanhados pela rede” da adicção activa, ninguém escapa ileso à devastação e ao caos. Alguns membros de família sofrem de stress pós-traumatico. Todos foram afectados, por isso, estão todos “no mesmo barco”, é preciso fazer novos planos e uma “limpeza a casa”. È necessário repensar nas atitudes e comportamentos a mudar, ex. mais tolerância, honestidade, comunicação e compromisso de mudança da parte de todos, como um grupo. Ninguém muda de um dia para o outro e ninguém é perfeito, bem pelo contrario, os seres humanos são seres imperfeitos. Recordo-me de um pai que dizia, fazendo uma analogia, com sabedoria, “Esse exemplo é semelhante à fruta que está no cesto da cozinha, uma peça apodrece e passado algum tempo apodrecem as outras todas...”
Não quero afirmar que erradiquem ou eliminem estas experiências recompensadoras e estimulantes, não acredito que a solução se encontre em fundamentalismos moralistas e ou ideais / valores morais proibicionistas existe uma área/equilibrio a realçar e a descobrir entre os extremos, contudo reforço a importância de manter níveis de vida satisfatórios ao nível das relações com as outras pessoas e consigo próprio. Alguns seres humanos desejam tornar-se pessoas melhores , não almejam atingir a perfeição, apesar de muitas vezes ficar “embebedado” nesta falsa crença. Através de um processo de aprendizagem de fracassos, de frustrações, de remorso e de erros, procura proporcionar junto daqueles que amam experiências enriquecedoras em termos dos afectos e dos laços, foi assim que se aprendeu a valorizar, no inicio da recuperação coisas muito simples, tais como sentir que não está só, que não é um ser horrível, dormir, tratar da higiene pessoal, afinal é possível recuperar. Se os outros conseguem, você também consigue, como algo espiritual, não religioso sem dogmas e divindades, libertador do sofrimento, da obsessão, do isolamento e dos segredos da adicção. A “chama” da esperança em recuperar pode permanecer eterna, um dia de cada vez.