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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Paradoxo

 

 

"Paradoxo em recuperação.

Rendemo-nos para vencer.

Perdoamos para ser perdoados.

Para manter o que temos, entregamos, em vez de controlar.

A força advém da fraqueza.

Enfrentamos a dor para ficar mais resilientes.

A luz advém da escuridão.

A independência advém da dependência.

Vivemos, o mais intensamente possível, um dia de cada vez, sabendo que um dia iremos morrer.” (tradução - autor anonimo)

 

 

Comentário: Apesar da complexidade da adicção (e do ser humano), hoje sabemos que a adicção é uma doença e podemos afirmar que existe esperança no tratamento e na recuperação.

 

 

O que é que significa a palavra Paradoxo? Segundo o dicionário da língua portuguesa é:

“Opinião contrária à comum.” 

 

 

Na vida, aprendemos através da dor, que aquilo que pensamos estar certo, pode mais tarde estar errado. Perante o perigo e o risco, associado aos comportamentos adictivos, desenvolvemos um sentimento de impunidade e invencibilidade que nos embebeda, extremamente apelativo, arriscado, intenso e sedutor; “É perigoso…mas vou controlar a situação. A vida são dois dias e um é para acordar.” Na adicção activa, quando julgamos que estamos a controlar, depois em retrospectiva, aprendemos com os erros, e impotentes, concluímos que afinal a realidade é bem diferente.    

 

Segundo o dicionário de Psicologia, de Roland Doron e Françoise Parot, o paradoxo “é uma proposição ao mesmo tempo verdadeira e falsa, que acarreta deduções contraditórias, entre as quais a razão oscila interminavelmente; dilema, círculo vicioso. “

 

Mais uma vez, tal como acontece na vida, vivemos entre duas linhas distintas mas que estão interligadas entre si, a ilusão e a realidade. A ilusão permite-nos fantasiar, criar e sonhar, a realidade permite-nos ser honestos, disciplinados e responsáveis. O mesmo fenómeno sucede na recuperação da adicção. A pessoa impotente, de acordo com o léxico comum, significa uma pessoa vulnerável, fraca e condenada ao fracasso. Todavia, algumas pessoas identificam a vulnerabilidade (impotência) em relação à adicção, todavia isso não é impeditivo de terem o controlo sobre as suas atitudes, comportamentos e adoptar estilos de vida saudáveis e construtivos. Por exemplo, o individuo que está abstinente de drogas, incluindo o álcool, em recuperação, é impotente perante as substâncias psicoactivas alteradoras do humor (sistema nervoso central), porém consegue ter o controlo necessário para fazer a sua vida. O individuo que é adicto ao jogo, ao sexo, distúrbio alimentar que está em recuperação é impotente perante determinados atitudes e comportamentos de risco, que reforçam a logica adictiva (compulsiva), porém consegue ter o controlo necessário para executar as mais diversas tarefas e actividades do seu dia-a-dia.

 

Um dos paradoxos muito comuns. Não somos a pessoa que dizemos ser ao nosso parceiro/a, ao familiar, nosso amigo/a, colega de trabalho; na realidade, somos aquilo que concretizamos; aquilo que fazemos que está certo e/ou errado. Por exemplo, empregamos palavras elaboradas e evocamos princípios, para justificar um exercício de retórica, mas aquilo que fazemos, na realidade não é coerente e íntegro.

 

Para si que está em recuperação da adicção integre os paradoxos da vida de acordo com o alinhamento das suas próprias convicções e princípios. Outro dos paradoxos que a maioria dos adictos, em recuperação encontra é; a recuperação da adicção é um projecto individual, todavia porém, é reforçado pela qualidade dos relacionamentos das outras pessoas. Da adicção ninguém recupera sozinho. Todos nós possuímos uma história para contar, todos nós temos problemas e a dada altura das nossas vidas precisamos de ajuda.

 

 

 

 

 

 

Despertar espiritual; um passo para a recuperação dos comportamentos adictivos

Doze Sintomas sobre o Despertar Espiritual. (tradução)

1. Aptidão para deixar que as coisas aconteçam, em vez de fazer com que elas aconteçam; largar o controlo.

2. Ataques de riso frequentes.

3. Sentimentos de ligação (conexão) com as outras pessoas e a com a natureza.

4. Episódios frequentes e necessários de estima.

5. Propensão para pensar e agir da uma forma espontânea em vez de agir com base no medo das experiencias do passado.

6. Aptidão inequívoca de usufruir cada momento.

7. Desprendimento na tendência para ficar preocupado.

8. Desprendimento no interesse de entrar em conflito.

9. Perda de interesse em interpretar o comportamento dos outros.

10. Perda de interesse em julgar ou criticar os outros.

11. Perda de interesse na auto critica negativa.

12. Extrair proveito da aptidão para amar sem esperar nada em troca.

 

Fonte: http://recoverytradepublications.com 

 

Comentário: O que é que significa despertar?

De acordo com o dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, é

“Tirar do sono; acordar; estimular; ativar; dar origem a; avivar o espirito”

 

Na minha opinião o despertar espiritual, está intrinsecamente relacionado com a recuperação dos comportamentos aditivos. Isto não quer dizer que o despertar espiritual seja uma experiencia que ocorra em todos os aditos/aditas e/ou que seja uma condição para o individuo iniciar a sua recuperação. Não, todavia, algumas pessoas afirmam passar por esta experiencia poderosa e profunda quando fazem a transição entre a adicção ativa e a abstinência/recuperação – Mudança. A mudança de atitudes e comportamentos proporciona uma determinada experiencia, ao individuo, referida como despertar, que o afeta nível espiritual.

 

Um numero considerável de pessoas que experimentam a perda total do controlo da sua vida, como consequência da adicção activa, isto é, perdem a capacidade de antecipar e prever o resultado final dos seus comportamentos e/ou objetivos é uma experiencia aterrorizadora e traumática, agravada pela consciência plena do desastre e do caos eminente. Durante a adicção ativa, estas pessoas perdem a capacidade de sonhar, perdem a capacidade de comunicar com as pessoas que amam, perdem a capacidade de desempenhar as suas competências no trabalho, vivem vidas duplas de ilusão, negação e sofrimento, da qual a busca sistemática do alívio está confinado ao prazer imediato, refiro-me às substancias psicoactivas e/ou comportamentos adictivos (jogo, sexo, distúrbio alimentar, dependência emocional, compras e furto). Quando surge a oportunidade de interromper a progressão da doença (adicção) e do sofrimento, através da consciência das coisas que foram vivenciadas durante a experiencia passada e dolorosa, o despertar espiritual, eleva o potencial humano, numa situação idêntica á sobrevivência, a atingir objetivos que o individuo julgava não ser possível concretizar; desperta, acorda, reconhecendo que a verdadeira mudança está em si mesmo, clarividente do renascer, e voltar a viver, através dos paradoxos e da mudança de paradigmas disfuncionais, a fim de ser tornar uma pessoa melhor.

 

Gostaria de referir que a palavra espiritual, não expressa uma conotação religiosa pré determinada, não possui dogmas e/ou divindades. Espiritualidade é um conceito único e livre, dependendo das crenças e experiencias de cada individuo, é um sentimento de ligação com uma força superior imaterial com quem o individuo comunica potenciado através da qualidade dos relacionamentos com as outras pessoas (conexão – valores).

 

Você está em recuperação dos comportamentos adictivos e passou por um despertar espiritual? Envie a sua experiencia para joaoalexx@sapo.pt Partilhe a sua história connosco. Bem-haja.

 

Controlar a adicção pode ser uma obsessão.

Um dos temas mais controversos no tratamento da adicção, gira em torno do auto controlo e/ou a falta dele. Paradoxalmente, um número muito significativo de adictos (homens e mulheres) e as suas famílias, apresentam uma predileção especial pelo controlo.

 

Dependemos unicamente das nossas competências e recursos para realizar os nossos projetos e ambições, isso é sinonimo de auto controlo. Na prática, é-nos incutido de uma forma explícita, que precisamos de controlar os nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos e também dependemos do autocontrolo, para viver, segundo as tradições, as regras e os rituais (paradigmas e estereótipos) da família e da sociedade em relação aquilo que está certo e aquilo que está errado; direitos e deveres.

 

Dependemos do auto controlo para sobreviver, custe o que custar, nesta batalha campal que é o dia-a-dia, feito de correrias, preocupações e stress.

 

O autocontrolo e o prazer imediato

O que é que o consumo de álcool, drogas ilícitas, a ingestão de alguns alimentos ou o contrario (restrição alimentar), relacionamentos de intimidade/paixão, o jogo, o sexo, as compras têm em comum? É a sensação de prazer imediato, intenso e de bem-estar que as pessoas sentem. Existem sensações de prazer imediato e intenso, para todo o tipo de gostos e preferências. Todavia, do ato normal e legitimo, curioso, inofensivo e saudável da busca de prazer até á dependência pode ir uma distância muito grande ou não.

 

Como é que um individuo, que afirma controlar a sua vida, por ex. um médico, uma advogada, um professor, uma engenheira, um bancário, um mecânico ou uma dona de casa, reconhece, que afinal o resultado do abuso de substâncias e/ou comportamento adictivo, revela-se errado, doloroso, disfuncional, ilegal e imoral? Após varias tentativas e estratégias, sem sucesso, para controlar a dependência (adicção), esta torna-se o foco da atenção e dos problemas. Estas pessoas, aparentemente, controlam a sua vida, mas na realidade, não controlam os efeitos e as consequências da sua adicção (doença).

 

Uma vez despoletado a progressão da adicção, o individuo, que afirma controlar o desempenho das suas funções e obrigações, desenvolve um conjunto de mecanismos psicológicos inconsciente, (negação, racionalização, justificação), cujo intuito, é o auto engano e a auto ilusão, onde é, inconscientemente, capaz de acreditar nas suas próprias mentiras; Nega os aspetos negativos da doença (consequências e efeitos) e reforça, para si mesmo, os aspetos positivos da adicção (reforço positivo – sensação de alivio e o prazer imediato, afirmando “Eu mereço…”, seja obtido através do abuso do álcool, as drogas ilícitas e/ou comportamentos adictivos; jogo, sexo, distúrbio alimentar, codependência, furto, compras). O individuo constrói imagens de si, como alguém que está no seu perfeito juízo/controlo; mesmo tendo vidas duplas; uma vida secreta de adicto e a outra vida publica da negação, do faz de conta.

 

 

 

14ª Dica Arte Bem-Viver de 26/06/2011 - Adiar a gratificação imediata

 Olá

 Adiar a gratificação imediata. O que é que isso significa?

 

É humano procurar a gratificação, a satisfação e o reconhecimento através das pessoas, lugares e coisas, é uma forma de recompensa, de aprovação e ou de agradecimento.

 

Todavia, na nossa sociedade, desenvolvemos o culto/habito pela competitividade e pelo consumismo na procura do caminho mais curto (atalho) e menos doloroso, neste sentido a gratificação/prazer imediata assume uma necessidade impreterível e disfuncional na gestão das emoções, gestão das prioridade, no critério da recompensa e gratificação individual. Se conseguirmos parar, por uns breves momentos, e reflectir sobre os nossos comportamentos, concluímos "Queremos as coisas já... ou de preferência para ontem."  Evocamos os princípios ( as palavras), mas procuramos satisfazer o nosso Ego (atitudes e comportamento). Aquilo que dizemos que somos; não é coerente com aquilo que fazemos. A nossa vontade, através dos impulsos reactivos e irreflectidos, na busca da gratificação imediata é suprema, como se a própria sobrevivência dependesse disso.

 

Adiar a gratificação imediata compromete o prazer imediato. Como? Primeiro, executamos as tarefas mais complexas que exigem auto sacrifício, disciplina, reflexão, criatividade, responsabilidade e determinação. É um processo de maturidade na gestão das competências cognitivas e sociais, dos impulsos, da dor e do prazer (balança emocional) nas coisas simples do dia-a-dia. Aprende-se a privilegiar (prioridades) os valores morais/éticos acima do prazer imediato, por ex. através da abnegação e o altruísmo Vs. egoísmo frenético e egocêntrico.

  

Se conseguirmos fazer uma gestão construtiva do desconforto emocional e da dor acabamos por aceitar esta condição, as prioridades, em primeiro lugar, ao invés de gerir a dor com um único proposito - preencher o vazio emocional (isolamento, solidão) com pessoas, lugares e coisas. 

 

Muitas vezes o que queremos (ter) não é o que precisamos (ser).

 

Votos de uma semana recheada de momentos de disciplina, honestidade, abnegação, reflexão, responsabilidade e determinação.

 

 

Cumprimentos

  

Nota: Esta Dica é um excerto do Retiro Espiritual Online (Programa Desenvolvimento Individual).

 

 

Comentário: Sabia que a Dica Arte de Bem-Viver começou com uma "brincadeira" para os amigos, em Abril de 2011? Passado um ano é enviada para mais de 300 pessoas, para vários países de expressão portuguesa (Portugal, Angola, Moçambique e Brasil) e para os Estados Unidos da América. Vai na sua 56ª publicação. Caso deseje receber a Dica basta enviar um email para joaoalexx@sapo.pt. No assunto da mensagem escreva: Dica Arte Bem-Viver. Todos os dados são confidenciais. É grátis

 

 


 

9ª Dica Arte de Bem-Viver de 22.05.11 - Mudança

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

Olá 

Costumamos afirmar que nos conhecemos o suficiente, mas infelizmente, para algumas pessoas, não é verdade porque racionalizamos, justificamos, maximizamos, negamos. Por vezes, estes mecanismos ficam” cristalizados" inconscientemente.


Ao longo da vida, estamos emocionalmente envolvidos num processo constante de transformação e de adaptação. Isto significa, que aquilo que acreditávamos (passado) poderá ser renovado e (re) ajustado à realidade e ao Rumo da Vida que escolhemos (presente).


Como gerimos e lidamos com a resistência natural à mudança de atitudes e comportamentos?

Estamos de mente aberta ou resistimos a ceder ao óbvio e/ou à realidade...dos factos, prolongando o sofrimento?

Podemos desenvolver uma "musculatura" cognitiva e social que nos permita monitorizar os factos, a realidade e amadurecer. Estamos prontos para assumir riscos, sair da zona de conforto, para mudar?

Não estamos sozinhos neste "barco", resistente à adversidade, mas para pescar é preciso sair do porto seguro. Para isso é preciso avaliar o comportamento e escutar as emoções... o mais honestamente possível.

Hoje faça um inventário audaz e detalhado de si próprio (aspectos positivas e aspectos a modificar) e não dos outros.


Votos de uma excelente semana


Cumprimentos



Sabia que a Dica Arte de Bem viver começou com uma "brincadeira" para os amigos? Hoje em dia é enviada para mais de 300 pessoas, para vários países de expressão portuguesa. Caso deseje receber a Dica basta enviar um email para joaoalexx@sapo.pt. No assunto escreva Dica Arte Bem-Viver. Já vai no numero 29. Todos os dados são confidenciais. É grátis. 



Pedidos de ajuda que quebram o estigma, a negação e a vergonha

Pequenos excertos sobre pedidos de ajuda recebidos por email, sendo posteriormente enviadas as respectivas respostas. Todos os dados pessoais foram alterados de forma a manter a confidencialidade dos seus intervenientes. Se identificar com alguma situação e ou comportamento em concreto pode escrever um email e solicitar apoio.
A publicação destes pequenos excertos tem como propósito quebrar o ciclo disfuncional associado ao estigma, à negação e à vergonha. Na sociedade de hoje, é cada vez mais comum o aparecimento deste tipo de problema e questões entre pessoas e famílias. Por vezes, a distancia, entre pessoas com problemas idênticos, pode ser uma porta, um prédio e/ou uma mesa do escritório. A ajuda surge quando o ciclo disfuncional adictivo é interrompido. 

Todos, sem excepção estamos vulneráveis e expostos à adversidade, por ex. comportamentos adictivos. Determinados comportamentos dolorosos podem despoletar o mecanismo (ex. procura do prazer e do alivio através da comida, sexo, substancias psicoactivas lícita e/ou ilícitas, jogo, relacionamento de dependencia, compras, shoplifting - furto) que supostamente nos protege da dor, mas conduz-nos no sentido contrário, da dependência e da perda do controlo.

 

Pedidos de Ajuda

Distúrbio alimentar: "Navegava na Internet para resolver o meu problema de bulimia. Adorei o seu blogue, acho que encontrei uma luz ao fundo do túnel. Amei o texto sobre perdoar e cada vez mais me convenço que tenho que aprender a perdoar e a perdoar-me em vez de viver a apontar o dedo a mim e aos que me estão mais próximos."

‎Distúrbio alimentar: "Desde há uns anos quando acabo uma refeição 90% das vezes fico agoniado/enjoado. Quando tinha 12 anos era gordinho e a família brincava comigo em relação ao meu peso e ao corpo. Não achava piada. Dei por mim, a beber um copo de leite de manhã e a jantar. Sempre que como fico mal disposto. Nunca vomitei após uma refeição, mas tento controlar-me, porque vontade não me falta. Será que posso ter algum tipo de distúrbio alimentar?"
 

 

Não é o nosso corpo que precisa de mudar: são as nossas atitudes

 

 

 

 

 

O convite à Margarida Araújo para participar no Recuperar das Dependencias tem dois motivos. O primeiro surgiu há vários meses atrás quando a vi, acompanhada pelo seu Personnal Trainer, no mesmo que Health Club que frequentamos e onde apeteceu-me chegar junto a ela dizer: “Desculpe, mas só queria dizer-lhe que admiro imenso” só não o fiz por receio de ser mal interpretado e porque na altura pesava 179 kg. Hoje pesa 112 quilos e perdeu 67 em oito meses. O outro, mais recentemente, foi através de uma reportagem de um jornal onde a Margarida, em conjunto com mais três indivíduos, revelam a sua aventura e resiliência na mudança das suas atitudes.

Nesse sentido, decidi propor à Margarida um simples questionário com 8 perguntas e às quais ela respondeu, com honestidade, na totalidade.

 

 

Identifica alguém na sua família com problemas de obesidade ou outro distúrbio alimentar?
Margarida Araújo: Sim. No que respeita à família nuclear, a mãe e a irmã mais velha. Não no grau de obesidade que alcancei, mas com distúrbios alimentares dessa ordem. No sentido mais lato de família, é possível identificar, entre os meus, tios, primos que sempre tiveram excesso de peso e tendência para engordar, mas sem chegar à obesidade.

Qual ou quais os factores que tenham contribuído para o agravamento do problema (obesidade)?
M.A.: Entre os meus familiares sempre houve o hábito de celebrar à mesa. Mesa farta, almoços que se prolongam pela tarde dentro. E, assim, se criaram maus hábitos alimentares e estilos de vida menos saudáveis.
Ansiedade. Acaba por ser um ciclo, comia porque estava nervosa…depois enervava-me porque tinha comido…e voltava a comer ainda mais.
“Perdido por 100, perdido por 1000…”. E deixamo-nos ir…e pensamos: mais quilo, menos quilos…
Nunca tive problemas de mobilidade e não se pode dizer que era uma pessoa totalmente sedentária, porque sempre andei muito a pé. Por isso, sempre me mexi bem e isso não era, para mim um problema ou algo que me levasse a fazer dieta.
Depois, também nunca tive problemas de saúde ligados à obesidade e, de certa forma, sentia-me uma gorda “saudável”.
Lá no fundo, sabia, que mais cedo ou mais tarde, esses problemas acabariam por surgir...mas quando surgissem, tomaria uma decisão.
Até que me apercebi, que o pensamento não devia, nem podia ser esse. E consciencializei-me que devia agir, antes de essas complicações surgirem.

Afinal, nenhum gordo é saudável, porque a própria obesidade já é uma doença grave.

Quais as dificuldades relacionadas com a obesidade? Problemas físicos, psicológicos e sociais. Ao identificar os problemas acima referidos como se sentiu na altura?
M.A: Ao nível físico, apesar de nunca ter tido problemas de mobilidade e de nunca ter sido uma pessoa sedentária, porque sempre andei muito a pé, o mínimo esforço físico, cansava-me imenso. Caminhar, subir escadas, o simples levantar de uma cadeira, gestos e comportamentos simples que se tornaram, para mim, penosos.
No nível psicológico e no social, sempre me senti deslocada.  
Nunca me sentia bem em parte alguma, mesmo entre amigos, ou em casa, nunca estava suficientemente à vontade.
Nos cafés, nas salas de aula, procurava sempre o lugar mais escondido, longe dos olhares das pessoas.
Quando ia a uma esplanada, tinha que escolher uma que não tivesse cadeiras de plástico…
No cinema, tinha que levantar um braço à cadeira, para me pode sentar…Nos transportes públicos, ocupava 2 lugares.
Ao longo da vida, já fiz muitas dietas, e todas elas com excelentes resultados, mas acabei sempre por recuperar os quilos perdidos.

Isso, foi-me tornando uma pessoa frustrada, derrotista e sem vontade de ir à luta. Este sentimento de “não ser capaz” reflectiu-se em todos os aspectos da minha vida, desde o relacionamento com as pessoas até à minha vida profissional. Cheguei a estar 4 anos desempregada, por vergonha de ir às entrevistas de emprego.
Aparentemente, era uma pessoa feliz, bem-disposta, divertida…e brincava com as situações, muitas vezes para que as pessoas que me rodeavam não se sentissem desconfortáveis, com algum comentário menos simpático.  
E sentia-me feia, incapaz, triste, revoltada, incompreendida…

Quais os factores motivacionais que contribuíram para a mudança?
M.A: Nunca tive problemas de saúde ligados à obesidade e, de certa forma, sentia-me uma gorda “saudável”.
Em Setembro do ano passado, comecei a acompanhar o “Biggest Loser” americano, na Sic Mulher, e deu-se o “clic”.
Comecei a comentar, em casa, que queria inscrever-me num ginásio, mas não tinha coragem…ou melhor, tinha muita vergonha!
No dia 12 de Outubro de 2010, a minha irmã mais nova, a Sílvia, praticamente me arrastou até à recepção do ginásio.  
Ela disse: “Tens vergonha? Vergonha devias ter de estar nesse estado e não fazeres nada!”. E assim foi, inscrição feita, avaliação física marcada para dia 18 de Outubro, a segunda-feira seguinte.
Chegado o dia, dirigi-me ao ginásio para ter avaliação física com o Personal Trainer Gonçalo Fonseca, que tem formação em Reabilitação no Desporto e experiencia em controlo do peso.
Ia motivada, mas cheia de vergonha e com muito medo de fracassar, mais uma vez.
O Gonçalo fez-me subir à balança e deparar-me com o número 179,1! Arregalei os olhos e não consegui dizer nada… Ele disse: “Vieste no momento certo! É agora! Tiveste a coragem de dar o primeiro passo e o mais difícil já está feito!”


A partir desse dia, treino sob a sua orientação, 6 dias por semana.  
Estar-lhe-ei eternamente grata por tudo o que me ajudou a alcançar. O Gonçalo é um grande profissional e um dos pilares do meu sucesso.  
Faz-me exigir sempre mais de mim. Faz-me ir ao limite e superar-me a cada treino. E isso tem sido fundamental neste processo. Porque hoje, me sinto capaz de vencer qualquer obstáculo ou contrariedade que possa surgir.

Visto os seus planos terem tido êxito, qual ou quais os factores que contribuíram para o sucesso?
M.A: Perseverança, perfeccionismo (no sentido de querer fazer sempre mais e melhor, por muito que isso me custe), disciplina, motivação, concentração, espírito de sacrifício e, principalmente, muita força de vontade.

Quais as características da sua personalidade que considera relevante neste processo de mudança, na gestão da adversidade ao longo do plano?  
M.A: Empenhada e cada vez mais cheia de vontade de prosseguir esta saga contra os quilos a mais.

Como se sente agora?
M.A: Sinto-me mais bonita, mais segura de mim, mais capaz. Sinto-me uma vencedora e orgulho-me de cada conquista.
Sinto-me uma atleta, saudável e cheia de energia. Sinto que, desta vez, ao contrário do que aconteceu nas dietas anteriores, não haverá recuos, porque consegui adquirir hábitos de vida saudáveis.
A sensação de frustração já não existe. Hoje sou uma mulher confiante. Sinto-me uma guerreira…vitoriosa.
Sinto-me muito feliz!


Considera que a sua experiencia de vida pode motivar outras pessoas com o mesmo problema a procurarem alternativas e/ou soluções? Explique como.
M.A: Sim. Aconteceu o mesmo comigo. Inspirei-me em casos de sucesso, dei o primeiro passo e fui em frente.  
O facto de ver pessoas como nós, com as mesmas dificuldades e com os mesmos problemas irem à luta pelos seus sonhos e objectivos, apesar dos seus medos e das suas limitações, motiva-nos e encoraja-nos.  
Acomodarmo-nos não é solução. Pior que fracassar é a sensação de não ter tentado.
Por mais árduo que seja o percurso, por muitas quedas que dêmos, não podemos, nunca, desistir de nós. E ver os outros a “arregaçar as mangas” e a vencer pode fazer toda a diferença.

Obrigada, Margarida Araújo.

Contacto: guida.araujo@gmail.com

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Comentário: Os meus sinceros agradecimentos à Margarida Araújo pela sua participação no Recuperar das Dependnecias. O seu exemplo, através da progressão do distúrbio alimentar (obesidade) ilustra o papel disfuncional sobre os hábitos alimentares no dia-a-dia, na nossa sociedade, assim como as consequências negativas a nível psicológico, físico e social.

 

O nosso organismo não está preparado para processar aquilo que comemos e como comemos, como queremos. Está "formatado" para armazenar, sempre que comermos algo que não consigamos processar (metabolismo).

 

Sabia que por vezes comemos de forma a satisfazer as nossas necessidades emocionais? Uma grande parte de nós aprendeu a socializar-se, com comida, para nos sentirmos bem. Recebemos comida por imensas razões, por ex. exprimir amor ou reconhecimento, hospitalidade e ajuda-nos a lidar com a desilusão e experiências negativas (Craighead, 2006).

 

Mais uma vez os parabéns à Margarida pelo seu exemplo de motivação em quebrar a ambivalência, de coragem em enfrentar a negação, o estigma e a vergonha, a resiliência e no seu testemunho/partilha de experiencia. Este tipo de experiencias será recordado, ao longo da vida, como uma vitória perante a adversidade. Mais uma vez reforço que não é o nosso corpo que precisa de mudar, são as nossas atitudes.

Recuperar É Que Está A Dar. Seja da adicção activa (substâncias psicoactivas licitas, incluindo o álcool e a nicotina, e/ou as ilícitas, o jogo, o sexo, o distúrbio alimentar, o shoplifting - -furto, as compras - shopaholics, relacionamento de dependência – codependência), da recaída, da doença crónica, do divórcio, da obesidade, da perda e do luto, da crise, da separação, da saudade, da dor crónica, do insulto e da violência, da depressão, da ansiedade, da auto estima e da dignidade.

 

 

A Dor crónica, a Culpa e a Adicção: Uma triangulação indesejada

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na maioria dos casos, quando uma família ou relacionamento de intimidade romântico (casal/parceiros) é afectado, pelas consequências negativas da Adicção activa, sejam substancias psicoactivas licitas, incluindo o álcool, e/ou ilícitas, jogo, sexo, compras, distúrbio alimentar, shoplifting, codependência, desenvolvem dinâmicas (atitudes e comportamentos) disfuncionais, entre os seus membros, que afectam o equilibro da relação, dos limites, dos papeis e dos afectos. Todos, sem excepção, são afectados pela dor aguda e adoptam uma postura defensiva no relacionamento uns aos outros, por ex. através da culpa. Procura-se um culpado pelo problema. Por ex. alguém na hierarquia família é culpado. Um mais do que outro, alguém tem de ser culpado e “castigado” pela causa do problema e pelas suas consequências. É perfeitamente legítima esta turbulência.

 

 

Sabemos que a dor é comum a todos os seres vivos. É um mecanismo de sobrevivência. Funciona como um sistema de alerta que é accionado quando algo está errado e possa comprometer a integridade física e/ou emocional. Se não sentíssemos dor não estaríamos vivos. Podemos classificar a dor em duas categorias 1. Dor Aguda é consequência do trauma, do ferimento, do insulto e pode ser reciclada, de duração limitada, através de um efeito curativo e transformador de competências (experiencia empírica). Aprende-se com isso, a vida continua 2. Dor Crónica persiste no tempo para além do fortuito produzindo sofrimento frequentemente intolerável capaz de assumir diversos tipo de manifestações físicas e/ou psicológicas. A Dor Crónica compromete seriamente a qualidade de vida.

 

 

 

 

 

 

 

Gratidão

 

Após anos e anos de insanidade em busca de prazer imediato, cansei-me. Cansei-me de tanta dor, desespero, mentira e solidão...

 

Quis morrer... Baixei os braços e desisti da vida a preto e branco que levava. Estava tão cansada…

 

 

 Mais tarde, aceitei que tinha um problema, aceitei que tinha uma doença que me estava a levar à loucura e à falência de todo o meu Ser…

 

Pedi ajuda…

 

Apesar do vazio que sentia, lutei e ultrapassei a angústia, o medo e a confusão inicial.

 

Comecei a pegar as pontas soltas quase perdidas, da minha vida, e regressei a muito custo ao mundo dos vivos…

Aos poucos fui percebendo que a energia pesada ia saindo de mim, do meu corpo e da minha alma. Agora eu senti que me estava a libertar de um buraco negro, quis ligar-me com o Sol e com a sua Luz.

 

Sempre fui demasiado frágil e sensível, a minha vivência mostrou-me que existe algo demasiado forte, mais forte que a matéria. Acredito que somos parte de um Universo imenso com dois pólos, o negativo e o positivo, o Amor e o Ódio, o yin e o yang, o sim e o não. Coincidências que não são apenas coincidências… Decidi escolher ligar-me ao Sol e à Luz, ao sim…Agora podia escolher, estava livre!

 

Arranjei um trabalho bem diferente do que tinha, menos remunerado e sem a “imagem” ou “status” que o meu emprego perdido tinha, mas, estava feliz. Foi duro voltar ao local onde trabalhara e começar de novo, numa outra empresa, noutro mundo, noutro patamar e até posso acrescentar “inferior” na língua humana falada. Estranhamente, este emprego e o contrariar esses pensamentos negativos, pré-concebidos, pela minha cultura e sociedade do que é e não é, colocou-me longe de tudo isso, mais centrada em mim e menos naquilo que os outros pensam. Afinal nunca me sentira muito parte desta sociedade e destes ideais todos que se auto denominam correctos. Quem disse que é assim?!

 

Conheci pessoas que gostei e que gostei menos. Reencontrei pessoas que gostava mais e outras que gostava menos, mas agora só mantinha na minha vida quem não me tirava a luz, quem me respeitava enquanto ser. Fui a sítios que me traziam prazer outros que nem tanto, passei a escolher o meu próprio rumo.

 

Perdão, perdoei-me… Pedi perdão a quem fiz sofrer, selei na Luz com Amor. Apenas ficou quem tinha que ficar…

Passei a respeitar o que sinto e não o que é suposto. Aprendi que tenho limites para estar confortável, comecei a conhecer-me… Foi a coisa mais maravilhosa que me podia ter acontecido, reencontrar-me.

 

Voltei a sonhar, meti acção e já concretizei alguns desses sonhos e ambições, afinal tenho valor…

 

Agora tiro prazer do cheiro que chega da primavera, do sol que sinto na minha face, do arco-íris que as vezes tenho a felicidade de contemplar, de um sorriso que rasgo sentido e sou feliz, muito feliz! O meu mundo voltou a ser a cores! Aprendi a sentir-me e ao que me rodeia.

 

Todos os dias quando acordo sinto-me grata pela paz interior que sinto. Saboreio calmamente cada instante e não me apresso. Sinto o agora… Sinto-me grata por estar viva. Sinto-me grata pelo pesadelo que tantas noites me assombram, mas felizmente já não fazem parte da minha realidade, sim, sonho muito. Mas são apenas sonhos, pesadelos, reboliços do meu inconsciente. Fico serena nesta realidade calma e cheia de amor por mim e pelos que mais amo. Não me inquieto com o futuro, nem me torturo nem culpo pelo passado, afinal estou aqui e agora e, é esse agora que interessa, esse agora que eu vivo. Cabe-me a mim fazer esse agora da melhor forma, eu agora posso escolher, sou livre e, só por hoje vou viver o meu dia da melhor maneira. Quando um pensamento mais negro se aproxima eu contrario-o porque há sempre um outro cheio de luz mais belo e mais intenso e eu posso escolhe-lo, ele está lá. Vou tirar prazer dos sons do mundo e dos seus cheiros.

 

Sou livre!

Só por hoje estou serena

Só por hoje estou feliz

Só por hoje vou amar-me

Só por hoje vou respeitar-me e, ao outro

Só por hoje estou grata por viver um dia de cada vez

Só por hoje vivo na verdade

 

Abraço de Luz

Namasté

Patrícia Bento

 

Comentario: Os meus parabéns à Patrícia pela sua participação, escrita e imagem, no Recuperar das Dependências. A gratidão é sem sombra de duvida um valor moral da qual nos "agarra" às pessoas e à vida. Permanecemos num estado de agradecimento pelo (re)nascimento e transformação após um período conturbado do nosso devir. Aprendemos uma lição de vida de algo que nos transcende e da qual estamos cá para partilhar, agradecimento idêntico ao sobrevivente de um acidente e ou doença. Através da gratidão valorizamos as coisas e as pessoas, para além do nosso Ego frenético e egocêntrico. Mais uma vez bem hajas Patrícia.