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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar da adicção - "The Anonymous People"

 

 

 

 

A Adicção veio para ficar com consequências trágicas. Todavia, existe a esperança, milhões de pessoas encontraram as respostas para os seus problemas.

 

Veja este vídeo (trailer) do filme "The Anonymous People" siga o link


Recuperar É Que Está A Dar

É um deslize ou uma recaída?

De acordo com a abordagem terapêutica às dependências de substâncias psicoativas lícitas, vulgo drogas, incluindo o álcool, e as ilícitas, o tratamento deve contemplar a abstinência. É possível, para um individuo adicto ter um estilo de vida perfeitamente saudável abstinente de qualquer tipo de substâncias psicoativas lícitas, incluindo o álcool, e/ou ilícitas, só com uma única exceção, salvo medicação sujeita a prescrição medica, acompanhamento profissional e responsabilidade do doente em seguir o plano de tratamento e a sua recuperação.

 

Círculo da adicção: A doença da adicção é influenciada por um conjunto complexo de fatores (neuro-biológicos-psico-sociais), não é um vício (designação moral), falta de força de vontade e/ou característica da personalidade e/ou um ato voluntario. Após décadas de investigação sobre a doença da adicção, não existe no mundo, um programa que garanta a prevenção da recaída, o tratamento ou a recuperação de uma forma totalmente eficaz.

 Para todos os efeitos, a recaída ou o deslize, consiste na quebra da regra/princípio relativamente à abstinência. Ao contrário do que muita gente pensa, a recaída e/ou o deslize, não é um episódio isolado e na maioria dos casos não acontecem por acaso, é uma sucessão de acontecimentos críticos, conjunto de atitudes e comportamentos, que culminam com a ingestão do consumo de substâncias psicoactivas. Processo de recaída: começa em - atitudes e comportamentos que conduzem o individuo a – um episódio; ingestão/consumo da substância psicoativa.

Eis algumas perspectiva, de acordo com a minha experiencia profissional, sobre o que é recaída e o significado de deslize.

 

Qual é a diferença entre a recaída e deslize?

Recaída é:

O individuo perde o controlo do seu comportamento após a ingestão de substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, e/ou lícitas; acontece quando é despoletada a compulsão pelo efeito da substância (sensação associada ao prazer). Este tipo de abuso de drogas visa somente a intoxicação e a alienação da realidade. Esta reação complexa, não se pode confundir com o controlo ou a falta dele. Não é o adicto que escolhe perder o controlo e/ou ser adito. Este mecanismo é uma reação da adicção após a ingestão das substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, e/ou ilícitas, isto é, a ingestão da substancia afeta e compromete a forma como o individuo pensa, sente e age. Alguns indivíduos estão mais vulneráveis do que outros a este fenómeno.

No caso da recaída, após a compulsão ser despoletada, pelo efeito das substâncias psicoactivas, o adicto é incapaz de prever as consequências do seu comportamento (família, saúde, trabalho, justiça, dinheiro), nos dias, semanas ou meses seguintes, onde podemos incluir a recusa de ajuda de pessoas significativas a fim de retomar a abstinência.

 

 

 

Algumas curiosidades sobre o Modelo Minnesota (MM)

 

Durante a minha formação profissional tive o privilégio de estar presente numa das instituições mais reputadas do mundo, sobre o tratamento das dependências de substâncias psicoativas, vulgo drogas, incluindo o álcool, refiro-me obviamente a Hazelden Foundation (http://www.hazelden.org/)

 

Nesse sentido, decidi escrever este post de forma a revelar algumas das características do Modelo Minnesota; a sua génese, a filosofia e a sua história. Para os menos informados este modelo de tratamento é aplicado num regime de internamento residencial tratamento cuja duração é de 90 dias, aproximadamente.

Aproveito para enaltecer a dedicação e o compromisso de algumas pessoas genais  e visionários, durante o final dos anos 40, nos EUA, que dedicaram uma parte considerável das suas vidas a ajudar indivíduos a recuperar a sua dignidade e a recuperação da adicção. Lutando contra o estigma, a negação e a vergonha associados a esta doença.

 

Com este post não pretendo fazer uma abordagem completa e exaustiva deste modelo de tratamento, apenar pretendo salientar e revelar alguns detalhes sobre a sua historia e pessoas.

Para pensarmos no tratamento do alcoolismo e a génese do modelo Minesota precisamos de recuar até ao final dos anos 40, marcado pelo período pós-guerra (II grande guerra mundial), a segregação social, o tratamento do alcoolismo com uma forte vertente religiosa (evangelização) os asilos para doentes mentais e cadeias. Nesta altura ainda não existia o DSM, Manual de Diagnostico de Doenças Mentais, que só surgiu em 1952, nos EUA.

 

Modelo Minnesota “Uma abordagem evolucionária e multidisciplinar na Recuperação da Adicção.”  Jerry Spicer, Presidente Hazelden Foundation, Minnesota, EUA (1949 a 2011)

 

Génese – Instituições envolvidas (Minnesota Model)

1948 - Pioneer House (filosofia do tratamento dos Alcoólicos Anónimos, AA - http://www.aa.org/?Media=PlayFlash) era designado, na altura, como um clube/associação, onde surge o primeiro membro de AA e a primeira figura do Addiction Counselor (1949) como profissão, em colaboração com o Serviço de Saúde Publica de Minneapolis, EUA

1949 - Hazelden (filosofia do tratamento do AA)

1950 Hospital State Wilmar – departamento de psiquiatria (equipa de profissionais cuja abordagem ao tratamento foi inovadora contando também com introdução da filosofia do AA)

 

 

 

 

 

O Anonimato: para quê? e para quem?

Caros leitores,

Não queria começar sem agradecer o convite feito pelo João Alexandre para escrever para os seus blogues. Obrigado!

 

Decidi escrever sobre este tema porque continuo a assistir a um fenómeno recente, a meu ver, pouco ético de lidar com o cliente/paciente e sua família. Em desespero, as pessoas estão prontas para fazer qualquer coisa, ou aceitar qualquer proposta para parar o sofrimento diário.

Porquê o anonimato? Se pegarmos numa curiosidade verificamos que nas dezenas de irmandades de 12 Passos existe sempre uma palavra que não muda. Então vejamos: Narcóticos Anónimos, Alcoólicos Anónimos, Cocaína Anónimos, Famílias Anonimas, Nicotina Anónimos, entre muitas outras. É fácil, é a palavra “Anónimos” está sempre presente porque é extremamente importante. Esta palavra está sempre presente para proteção. Mas para proteção de quem? Também é fácil. Para proteção dos membros dessas irmandades.

 

A importância do anonimato surge resultante da experiência acumulada, ao longo de varias décadas, por membros das mesmas irmandades. Sabe-se que a recuperação não é fato consumado, isto significa que a recuperação é construída e alicerçada, todos os dias, um dia de cada vez. Um individuo que hoje está em recuperação; amanhã pode não estar. Para além disso, a vida é uma maratona, e aquilo que hoje podemos considerar inofensivo, não significa que não possa trazer consequências para nós ou para as nossas famílias, a medio e a longo prazo; capaz de gerar muitos momentos de dor e sofrimento.

 

O que me revolta, é saber que pessoas que estão nesta área de serviço (profissionais no tratamento de adições) e que trabalham com esta abordagem de tratamento (12 Passos dos Alcoólicos Anónimos, vulgo AA) sabem o porquê da existência do anonimato, e mesmo assim, cedem as exigências dos media (por exemplo: a televisão) para ter um espaço num canal a emitir em direto a nível nacional. Isto pode significar, na prática, uma assistência de milhares senão milhões de espectadores.

 

Não é uma maneira digna de tratar um cliente que é humilhado em frente a milhões de espectadores, entre eles estão familiares, amigos dos familiares, filhos, patrões, enfim, a sociedade em geral. Podem afirmar, que o cliente e a família aceitam este tipo de exposição, mas na realidade, estas pessoas estão em total desespero, aceitam qualquer coisas que os ajude a sair do problema, e os centros de tratamento (instituições) sabem disso. Na minha opinião, deviam protege-los e não expô-los desta maneira.

 

De acordo com notícias dos Estados Unidos da América, uns indivíduos davam uns dólares aos sem-abrigo alcoólicos de Nova Iorque em troca de uma luta. Ou seja, estas pessoas concordaram agredir-se mutuamente para ter em troca dinheiro para mais uma bebida. Fica aqui a comparação para reflexão.

 

Na minha breve passagem profissional por Portugal, o centro de tratamento onde fui Coordenador Terapêutico também foi a um desses programas de televisão da manhã, mas com uma pessoa com varios anos de recuperação, sem aquela pressão do desespero para parar de usar, onde aceitou contar a sua vida em frente das camaras. O resultado foi o mesmo: durante aquele dia recebemos dezenas de telefonemas, e eventuais clientes. Então eu pergunto, porque não levam um cliente que tenha uns anos de recuperação? Ou então, levem o cliente e a família em desespero ao programa se isso significa a “oferta” de um tratamento para o cliente, mas POR FAVOR, não mostrem a cara e mudem a voz. Não quebrem o anonimato das pessoas, porque muitas vezes é só isso que elas têm, ou que elas ficam para reconstruir as suas vidas novamente. E todos nós de uma maneira ou de outra sabemos disso.

 

Aqui fica o texto para reflexão.

Forte abraço e até a uma próxima oportunidade.

 

 

Nuno Albuquerque,

www.primecounsellinglifecoaching.com

 

 

Leitura recomendada: "Dependência, Estigma e Anonimato nas Associações de 12 Passos" da Catarina Frois, Edição/reimpressão:2009, Editor: Imprensa de Ciências Sociais. Livraria Bertrand. 

 

 

Comentário: Desde já os meus agradecimentos ao Nuno Albuquerque pela sua participação no Recuperar das Dependências. Também partilho da mesma opinião, quando se expõe publicamente, o sofrimento e o desespero, cujo intuito é a ajuda, as audiências e a publicidade ao centro de tratamento em questão. É uma triangulação (cliente, meio de comunicação social e instituições) confusa e pode revelar-se promiscua, caso não existam políticas e orientações que salvaguardem os direitos do cliente. Já assisti, a esses ditos programas, e parece que alguns limites são de facto, ultrapassados, por ex. informação clinica (confidencial) sobre o cliente e a evolução em tratamento. Este tipo de informação deverá ser partilhado, exclusivamente, entre profissionais, nunca em público.

 

Quais são as orientações que visam proteger o cliente, previamente esclarecidas e definidas, entre a instituição de tratamento e os meios de comunicação social? Por exemplo; quanto á exposição publica, qual/quais são os fatores de riscos e as possíveis consequências psicológicas no individuo? De que forma são defendidos? Caso se vejam a constatar danos, quem são os responsáveis? A instituição ou os meios de comunicação social? Enfim, existem imensas questões delicadas que devem ser contempladas e esclarecidas, pelas partes interessadas, de forma a prevenir qualquer tipo de dano.  

 

Gostaria também de aproveitar o tema do anonimato, lançado pelo Nuno Albuquerque, para falar sobre a ética, em especial no centro de tratamento com as características já referidas neste texto. Na minha opinião, este tipo de instituições de tratamento, que utilizam os 12 Passos dos Alcoólicos Anónimos[i] devem ter um código de ética (politicas, orientações e regras) e supervisão (supervisor) clinica, de grupo e/ou administrativas (Case management) que definem a organização e a relação entre a própria instituição (hierarquia e constituição), os seus profissionais (instrumentos de avaliação e confidencialidade) e os próprios clientes (conduta e expectativas), a fim de serem salvaguardadas os direitos e os deveres de todos. Só conseguimos usufruir, em pleno, da liberdade quando cumprimos as regras.

Caro leitor/a, se algum dia procurar ajuda, para si e/ou para um familiar, para tratamento da adicção solicite informação sobre o código de ética da instituição.

 

                                                                                                    



[i] Importante: Para evitar mal-entendido, gostaria de informar que não existe qualquer tipo de relação comercial, institucional e/ou profissional entre os grupos de ajuda mutua dos Alcoólicos Anónimos (AA) e estas instituições privadas. Por exemplo, nos grupos de ajuda mutua não existem profissionais, não apoiam com qualquer tipo de instituições privadas, a participação dos seus membros é totalmente grátis, não existem cotas ou outro tipo de pagamento/contractos, quando os seus membros vêm a público são totalmente anónimos (não se revela o rosto e a voz dessa pessoa).

As instituições privadas de tratamento, em regime residencial de internamento, da adicção utilizam somente os 12 Passos, na filosofia do tratamento. 

Quando o amor não é suficiente

Veja os bastidores do filme "When love is not enough"1 que aborda a relação entre Bill W (Co-fundador dos Alcoólicos Anónimos) e a sua mulher Lois Wilson (Co-fundadora dos Al-Anon 2), com a participação do actor Barry Pepper "Bill W." e da actriz Winona Ryder "Lois Wilson". 

O filme retrata a relação, entre marido e esposa, extremamente afectada pelos efeitos do alcoolismo, durante a "Grande depressão", no inicio dos anos 30, nos EUA. 

 

Em 1999, a prestigiada revista - Time Magazine afirmou que Bill W. era considerado uma das 100 personagens do século.

 

Notas:

1. Tradução: "Quando o amor não é suficiente"

2. Al-Anon é a designação americana dos grupos de Ajuda-mutua que reunem as mulheres e familiares, dos indivíduos alcoólicos

 


 

 

 

 

Recuperar da adicção ao jogo

Chamo me Rogério Lima, moro em Alagoinhas/BA, Brasil, jogador compulsivo em recuperação há 270 dias, graças ao meu Poder Superior[i],  às minhas reuniões de ajuda mutuo, aos meus amigos e ao amor que sinto pela minha família.

 

 É com muita felicidade e gratidão que aprendi a viver um dia de cada vez, e tem dado certo. Sei o quanto preciso do meu ontem, para fazer julgamentos de minhas imperfeições. Tenho muitas ferramentas para fazer o meu hoje em abstinência, reformulando meus antigos comportamentos e acreditando positivamente que só eu posso, mas não posso sozinho. Quanto ao meu amanhã e seus resultados, somente meu Poder Superior poderá traçar este caminho.

 

Sei que tenho erros e acertos; tristezas e alegrias; desânimo e vitalidade; isso acontece porque sou humano e carrego um turbilhão de sentimentos. Hoje, vivendo o programa de doze passos, sei o quanto é importante identificar e trabalhar essa intensidade de emoções que passam por mim diariamente. Compreendo que felicidade completa não existe, e também não teria graça. Preciso encher minha alma de aceitação e renuncia, parece contraditório, porém a vida é assim, viver o lado positivo e me manter invadido de fé e serenidade para os problemas que venham a acontecer.

 

Aprendi a acreditar no tempo de Deus[ii], durante esse 270 dias sem qualquer tipo de aposta, situações que imaginava demorar a acontecer, simplesmente aconteceram. Defino isso como entrega! Algo jamais praticado por mim.  

Estou consciente o quanto é importante para mim, um jogador compulsivo em recuperação, chegar aos nove meses; deixo a euforia de lado, e abro espaço para crença, onde tenho e posso levar a mensagem, a outro dependente que ainda sofre. Sinto muita satisfação quando isto acontece.

 

 

 

Voltando a viver

VOLTANDO A VIVER                                                           11/08/2011

 

Chamo-me Rogério, moro em Alagoinhas/BA, cidade que fica a 110 km de Salvador (Brazil). Sou jogador compulsivo em recuperação, distante da primeira aposta há 51 dias, Graças à misericórdia de Deus, Irmandades, e um pouco de minha boa vontade.

 

Depois de anos distante de partilha online, volto hoje, após um internamento de 51 dias em uma instituição para recuperação de dependentes, onde a programação de 12 passos(1) é o caminho. Aprendi que não posso em absoluto fazer a primeira aposta, como também preciso de uma mudança comportamental, para que possa viver em recuperação. Lá descobri a progressividade da minha doença em estudos, palestras, reuniões em grupos de mútua ajuda. Uma intensa programação das 08:00 ás 21:00 horas com pequenos intervalos. Obrigado, à Instituição onde recebi apoio, por ter tido o privilégio de fazer parte, e me dar as ferramentas necessárias para levar meus dias com Honestidade, Boa Vontade e Mente Aberta.

Agora me encontro em Vitória/ES, com esposa e filha respirando um pouco do oxigênio de uma vida nova, e fazendo visitas a familiares. E para minha felicidade, ao sair ontem da instituição, minha terapeuta me informou sobre uma sala aqui em Vitória/ES; irei lá me apresentar aos meus novos companheiros e tentar fazer uma partilha de Fé e Esperança.

 

Infinitas 24 Horas a todos!

  

Rogério Lima.

 

(1) 12 Passos é o programa ( 1º Passo ao 12º Passo) de recuperação para os comportamentos adictivos adoptado em algumas instituições de tratamento em Portugal, no Brazil, nos EUA, em Inglaterra, em Espanha e em varios países no mundo. É a metodologia de acordo com os principios/orientações aplicados à recuperação individual nos grupos de ajuda-mutua. Os Alcoolicos Anónimos (AA), nos Estados Unidos da America em 1935, foram os pioneiros nesta abordagem da problematica do alcoolismo. A seguir foram os Narcoticos Anonimos, em 1954, hoje em dia existem centenas de grupos de ajuda-mutua que utilizam os principios dos 12 Passos. Tal como foi referido, algumas instituições também adoptaram esta metodologia dos 12 Passos ao seu programa de tratamento, visto considerarem que é a abordagem que melhor reflete a recuperação do individuo, da família e da sociedade. De salientar que não existem qualquer tipo de interesses financeiros ou parcerias entre AA e as instituições profissionais.

 

Comentario: Desde já as minhas felicitações ao Rogerio pelo facto ter dado inicio à sua recuperação, e isso significar, nas suas palavras uma mudança comportamental,  e acima de tudo, que satisfaça as suas necessidades emocionais e espirituais promotoras de qualidade de vida. Recuperar é que está a dar.

A referencia no texto à palavra Deus reflete somente a opinião e a crença do autor.

Importante: A espiritualidade na recuperação dos comportamentos adictivos, referida neste blogue, reflete uma crença individual. É um conceito não religioso sem dogmas e divindades. É o sentimento de ligação a uma forma força superior imaterial com quem comunicamos e potenciado através das conexões com as outras pessoas.

 

 

 


 

Em recuperação, qual é a sua Vocação?

Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, 6ª Edição da Porto Editora a designação de Vocação é: acto de ser chamado ou predestinado para um determinado fim; inclinação e predisposição para um certo género de vida, profissão, estudo ou arte. Tendência, talento; jeito; índole.

 

 

Hoje em dia, existem numerosos livros e investigação sobre os interesses vocacionais; individuais e/ou sociais. Uma grande parte dessa literatura está direccionada para a área profissional por ex. liderança, gestão de recursos humanos, trabalho em equipa. Desde sempre que o trabalho é considerado uma das mais importantes actividades nas nossas vidas. Sabia que a maioria dos adultos gasta mais tempo a trabalhar do que a dormir e/ou a divertir-se? Outra parte dos adultos apresentam dificuldades acrescidas na altura de escolher as suas carreiras e/ou profissões. Esta questão existencial desconfortável é também idêntica aos relacionamentos românticos e intimidade (vivência com o/a parceiro/a). Uma parte significativa de indivíduos sentem remorsos e/ou arrependimento depois de fazer as suas escolhas.

 

Em recuperação (re) encontra-se a vocação.

O que é que a vocação tem a ver com a recuperação dos comportamentos adictivos? Antes que alguém possa desenvolver comportamentos adictivos (seja substâncias adictivas lícitas, incluindo o álcool, e ou ilícitas, jogo, sexo, dependência emocional, compras (shopaholics), distúrbio alimentar, shoplifting (furto) convém recordar, antes demais, que somos seres gregários e dependemos das conexões (vínculos) com as pessoas à nossa volta, principalmente as pessoas significativas. Somos dependentes, por exemplo, quando estamos doentes, assustados (ex. desemprego), deprimidos (ex. separação/divorcio), angustiados (doença de alguém significativo), inadequados, fragilizados, impotentes e perdemos o controlo. Todavia, o oposto também sucede quando partilhamos as nossas vitórias (ex. carreira profissional de sucesso), ambições (projectos de vida, superar doença), sucessos (casamento, nascimento) e gratidão (recuperação da adicção). Todavia, dificilmente aprendemos a desenvolver e a investir em determinados valores individuais, sociais e espirituais (não religioso, sem dogmas e/ou divindades) como por exemplo o amor, o propósito e o sentido da vida, a honestidade, o desapego, a intuição, a resiliência, assim, e de uma forma abrupta, a meio da adolescência, somos “empurrados” para o mundo dos adultos (cultura) e ensinados a estudar para ter sucesso, afim de arranjar uma profissão bem remunerada, constituir família e comprar casa. A independência e a autonomia, definida pelos adultos, exige um estabelecido status com base nas referências anteriormente descritas; sucesso, profissão, casar e casa.

 

 

 

Grupos de Ajuda-Mutua Sem Fronteiras, em Portugês

Constato com imenso agrado que desde o inicio, em 2008, este projecto Online, uma parte significativa dos seguidores (visitas) são indivíduos do Brasil.
Através da Internet a Recuperarão dos Comportamentos Adictivos não está restringida às fronteiras, pelo contrario, a informação está disponível num espaço virtual muito vasto e acessível a todos os interessados.

 

 

Neste sentido, após receber vários emails de indivíduos oriundos de varias cidades brasileiras a felicitar o Recuperar das Dependencias (Adicção) solicitei a alguns membros dos Grupos de Ajuda-Mutua, a possibilidade de publicar um post com endereços Online para que a mensagem de recuperação da adicção activa chegue ao maior numero possível de indivíduos. Na realidade, considero um recurso extremamente valioso, os Grupos de Ajuda-Mutua, na nossa comunidade e sociedade, cada vez mais exposta e vulnerável a este fenómeno trágico e global das dependências de substancias psicoactivas (drogas licitas e/ou ilícitas).

Grupos de Alcoólicos Anónimos (AA) na Internet, no Brasil.

 

 

Grupo 5 de Abril de AA – http://www.grupo5deabril.org/

 

Grupo Vivencia de AA -  www.aagrupovivencia.org/

 

Grupo Jatiuca de AA – Alagoas - grupo-jatiuca-aa-owner@yahoogrupos.com.br

 

Grupo Gomes Cardim de AA Online www.alcoolicos.gvgcaa.nom.br/

 

Grupo Recomeçar de AA Online - www.gruporecomecar.org

 

Grupo Recuperar de AA Online - www.recuperaronline.com/

 

Grupo Renascer de AA Online - www.gruporenascer.org/

 

Grupo de A.A. terra da luz – www.aaceara.org.br/grupo_terra_da_luz.htm

 

Grupo Doze Passos - grupoaadozepassoscanoas@gmail.com

 

GRUPO LIBERTAÇÃOhttp://www.gvolive.com/conference,grupolibertacaodeaa

 

AA BR-Online - www.aabr-online.com.br

 

AA Sobriedade - http://www.aasobriedade.org

 

AA Brasil Portugal - www.aabrasilportugal.org

 

AA Grupo 3 legados - grupo-tres-legados@oso-aa.org

 

Nota:  Recuperar É Que Está A Dar

 

 


 

 

 

 

 

 

A Filosofia dos 12 Passos na abordagem da adicção - evidência cientifica

Estudos recentes procuram revelar a forma como a abordagem espiritual, não religiosa sem dogmas e divindades, influencia o individuo na recuperação da adicção.

Para indivíduos dependentes de drogas lícitas, incluindo o alcool, e/ou ilícitas a filosofia dos 12 Passos, dos Alcoólicos Anónimos (AA) provoca causa um impacto profundo e positivo na manutenção da abstinência e no estilo de vida. Estes resultados comprovam-se através dos Grupos de Ajuda-Mutua desde 1935, ou de uma abordagem num contexto (setting) terapêutico (profissional) por atraves do Modelo Minnesota de Hazelden Foundation ou do 12 Step Facilitation.

Nos últimos anos, alguns investigadores estudaram a abordagem através do qual a filosofia dos 12 Passos, dos AA, influencia os resultados deste programa espiritual, não religioso sem dogmas e divindades, de recuperação da adicção. Os estudos revelam:

1. Existência de uma rede social de apoio na manutenção da abstinência,

2. Efeito da auto-eficácia (desenvolvimento de competências cognitivas e emocionais),

3. Confiança na manutenção da abstinência (sobriedade). Consequentemente, estes três factores são promotores de saúde e de prevenção do abuso de drogas lícitas, incluindo o alcool, e/ou ilícitas.

 

A espiritualidade, não religiosa sem dogmas e divindades, na recuperação da adicção é outra componente importante que contribui para o impacto da filosofia dos 12 Passos dos AA. É um paradoxo, reconhecido ao longo da história, sobre os seres humanos quando sujeitos a experiencias geradoras de sofrimento e carência estas revelam-se uma oportunidade para um despertar espiritual. Os fundadores dos Alcoólicos Anónimos, Bill W e o Bob S., descobriram que a adicção às drogas e/ou álcool proporciona uma disposição emocional para determinadas experiências espirituais. Espiritualidade, não religioso sem dogmas e divindades, é o núcleo central do programa do AA, da qual os 12 passos fazem parte. Os princípios espirituais referem a admissão da doença da adicção (dependência de drogas lícitas, incluindo o álcool, e/ou  ilícitas) a necessidade em confiar no outro indiviudo em recuperação e no programa e o compromisso em manter um “contacto consciente” com um poder superior não religioso, sem dogmas e divindades, exterior ao indivíduo. Este conceito é individual e imaterial.

 

A nível científico torna-se difícil estudar o conceito de espiritualidade. Por ex. se perguntar a 10 pessoas como definem espiritualidade irá ouvir 10 respostas diferentes. Para uns a pratica da espiritualidade pode implicar uma conexão com algo metafísico, quer seja o conceito tradicional de Deus ou através de um conceito não-tradicional de um poder superior. Para outros, espiritualidade é um conceito interligado com religião e um conjunto formal de práticas frequentes, tais como, frequência de locais de culto e grupos de oração. Alguns investigadores iniciaram o estudo sobre o papel que a espiritualidade desempenha na recuperação de indivíduos dependentes apesar das diferenças de conceito e dos desafios quanto à uma avaliação concreta.

 

Resultados obtidos até à data.

Observa-se entre indivíduos que procuram tratamento, cuja dependência atingiu níveis severos, níveis baixos de bem-estar espiritual, sugerindo que uma relação oposta também pode existir. Também se tem observado que o conceito de espiritualidade se exterioriza gradualmente durante o curso do tratamento.

 

Um estudo realizado por Sterling e colegas, consistiu em comparar 36 indivíduos que após tratamento recaíram em álcool 30 dias antes de participarem neste estudo e, que posteriormente, foram seguidos durante três meses (follow-up) com outros 36 indivíduos que correspondiam ao controlo/manutenção da recuperação – abstinência. È de salientar que através do curso do tratamento, desde a recolha de dados clínicos passando pelos instrumentos de diagnóstico até à alta de tratamento a maioria dos participantes exibiu um aumento significativo na pontuação da espiritualidade em 5 instrumentos/medidas diferentes. O follow-up, do refeirdo estudo, durante os três meses contemplava benefícios em experiencias espirituais diárias; coping espiritual e religioso, crenças espirituais, gratidão, tolerância e humildade. Entretanto constatou-se entre aqueles que recaíram que a pontuação, referente à espiritualidade, desceu significativamente durante o período do follow-up.

 

Existe uma conexão entre os níveis de espiritualidade (ex. conceito) e a prática da espiritualidade para uma efectiva melhoria da qualidade de vida, assim como, a prática do 11º Passo (oração e meditação). Um nível elevado de espiritualidade contribui para um estilo de vida satisfatório entre os membros de AA e entre indivíduos em tratamento que desenvolvam um sentido de propósito na vida, de gratidão, perdão e uma crença num poder superior. Consegue prever-se que contribua para trabalhar os Passos (aplicação da filosofia dos 12 Passos do AA, ex. abstinência a longo prazo) e para a qualidade de recuperação individual (através de um proposito e sentido, assim como o envolvimento em relacionamentos interpessoais).

 

Um estudo efectuado por Robinson e os seus colegas junto de indivíduos, com historial de dependência severo, após 6 meses de tratamento, veio revelar a relação entre a abstinência de álcool e uma disposição para experiências espirituais diárias (propósito e sentido da vida).

Aparenta também existir um impacto importante entre a filosofia do tratamento e a aplicação de princípios espirituais geradores de motivação para a mudança de comportamentos e atitudes.

 

Estudos recentes, examinaram o impacto da abordagem espiritual anexada ao aconselhamento comportamental. O referido estudo mostra que não existe diferenças entre aqueles participantes que receberam sessões de terapia de orientação espiritual e aqueles que receberam a sessões de terapia de orientação tradicionais. De qualquer forma, as sessões de terapia de orientação espiritual não foram aplicadas num contexto de tratamento, cuja filosofia do programa seja orientada para princípios espirituais. Importa salientar que o nível da abordagem espiritual era reduzido, assim como, a equipa de profissionais não exibiam experiência significativa no trabalho com indivíduos com dependências de substancias e em orientação espiritual.

 

Conduzir a investigação a outra dimensão

Ao longo de varias decadas, alguns profissionais têm observado o processo espiritual transformador de estilo de vida associado à filosofia dos 12 Passos, em membros do AA em recuperação, e nos mais diversos grupos de ajuda mútua que também utilizam os 12 Passos. De qualquer forma, são necessários mais estudos de forma a compreender os mecanismos específicos sobre a abordagem espiritual e como os resultados são influenciados. O referido estudo revela o papel importante da espiritualidade na recuperação e reclama mais atenção da comunidade científica.

O centro de investigação Butler Center, sediado em Hazelden Foundation, lançou um estudo extensivo de forma a investigar o processo de mudança espiritual na recuperação dos indivíduos porque a espiritualidade é o núcleo da filosofia por detrás dos Grupos de Ajuda Mutua que aplicam a filosofia dos 12 Passos. Convém acrescentar que Hazelden Foundation é pioneira na abordagem do Modelo Minnesota. Ao referido estudo denominaram “A Transformação Espiritual e a Recuperação” e este projecto procura compreender os mecanismos da mudança espiritual e o impacto na vida dos indivíduos com dependências de drogas lícitas e ilícitas, incluindo álcool.

 

É um factor a ter em conta tentar compreender, entre indivíduos dependentes, a correlação entre a mudança do egoísmo, do egocentrismo, ressentimento e o desenvolvimento do desejo e da necessidade de intimidade/compromisso com um poder superior, não religioso sem dogmas e divindades.

Finalmente, uma compreensão profunda da essência e do impacto da espiritualidade poderá influenciar a abordagem, numa variedade de programas de conteúdos teóricos, na recuperação de indivíduos dependentes de substâncias adictivas.

 

Estudar a filosofia dos 12 Passos do AA (ex. descrita no Big Book - edição inglesa) irá permitir a compreensão da componente espiritual e da forma como influencia a mudança de estilo de vida. Através de projectos idênticos ao desenvolvido em Hazelden Foudation será possivel revelar o impacto da espiritualidade na mudança e na recuperação. Após longos anos de experiência comprovada é fundamental fornecer uma validação científica à espiritualidade, que tanto merece, nesta área.

 

Valerie Slaymaker, PhD, é directora executiva do Centro de Investigação Butler em Hazelden Center City, Minnesota.

 

Referencias:

  1. Emrick CD, Tonigan JS, Montgomery H, et al. Alcoholics Anonymous: what is currently known? In McCrady BS and Miller WR (eds.), Research on Alcoholics Anonymous: Opportunities and Alternatives. New Brunswick N.J.:Rutgers Center for Alcohol Studies; 1993.
  2. Owen PL, Slaymaker V, Tonigan JS, et al. Participation in Alcoholics Anonymous: intended and unintended change mechanisms. Alcohol Clin Exp Res 2003 Mar; 27:524-32.
  3. Tonigan JS, Toscova R, Miller WR. Meta-analysis of the literature on Alcoholics Anonymous: sample and study characteristics moderate findings. J Stud Alcohol 1996; 57:65-72.
  4. Bond J, Kaskutas LA, Weisner C. The persistent influence of social networks and Alcoholics Anonymous on abstinence. J Stud Alcohol 2003; 64:579-88.
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