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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

O jogo problemático é um problema de saúde publica

 

Este artigo foi publicado no Jornal de Negócios (17 de Fevereiro de 2014)e está disponível só para assinantes online , nesse sentido, disponibilizo-o para si que é seguidor do blogue Recuperar das dependencias.

 

Jornal de Negócios: Nos últimos anos, o volume de jogos de fortuna e azar e apostas desportivas foram aumentando quer em locais físicos, mas como através da Internet. Esse crescimento foi acompanhado pelo registo de incremento de pessoas com adicção de jogo?

O incremento de pessoas com adicção ao jogo e o jogo patológico, através da internet tem sido exponencial. Por exemplo, no final dos anos 90 a maioria dos indivíduos adictos ao jogo, em casinos, eram adultos na casa dos 40 e dos 50 anos. Hoje em dia através do acesso online, chegam às consultas indivíduos com problemas associados ao jogo com idades entre os 24 e os 30 anos. Todavia, isso não quer dizer que todos sejam adictos ao jogo, isto é, alguns são indivíduos com problemas associados ao jogo que varia entre moderado e grave. Na sua pergunta refere adicção, nesse sentido, importa saber o que é a adicção. A adicção afecta a saúde do indivíduo, os vínculos familiares, incluindo das crianças, o desempenho profissional e a qualidade de vida. Ser adicto não é uma escolha pessoal. Ao longo de vinte anos de experiência profissional, na área da adicção, nunca ouvi nenhum individuo afirmar que escolheu ser adicto. Não é um acto voluntario, o individuo perde o controlo, a compulsividade, o craving (desejo intenso e irracional pela actividade) e continuação do comportamento apesar das consequências negativas. A Sociedade Americana da Medicina da Adicção define a adicção como uma doença primária, crónica que interfere e afecta o sistema/estrutura do cérebro responsável pelo prazer e recompensa, pela motivação e memoria e os circuitos neuronais adjacentes. Sabemos que uma alteração e disfunção destes circuitos neuronais conduzem ao aparecimento de sintomas a nível biológico, psicológico, social e espiritual no indivíduo, que se reflectem na busca e recompensa patológica do prazer. Por outras palavras, a adicção funciona como uma “almofada” perante determinadas situações e adversidades ao longo da vida do indivíduo. Este fenómeno repete-se com a adicção às substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, as ilícitas, vulgo drogas, com o jogo, o sexo, as compras, o furto. A fim de ficar esclarecido existe um critério que identifica o jogo problemático (moderado a severo) e um critério para a adicção (doença primária e crónica). A adicção não é um vírus.  

Segundo estudos (American Medical Association, EUA, 2000) existem factores genéticos em comum entre os indivíduos jogadores patológicos do sexo masculino e o álcool. Todavia, também gostaria de referir que nas últimas duas décadas, com os avanços tecnológicos e a investigação, principalmente nos EUA e Canadá, ainda estamos a aprender sobre o que é a adicção; as causas, a identificar aqueles indivíduos mais vulneráveis e os tratamentos disponíveis mais adequados.

 

Jornal de Negócios: É possível traçar o perfil do jogador compulsivo?

Segundo uma investigação no Canadá, os indivíduos com problemas associados ao jogo compulsivo (patológico) apresentam quatro vezes mais probabilidades de serem diagnosticados com doença mental, relacionado com perturbação do humor e ansiedade, do que os indivíduos não jogadores. A actividade associada ao jogo começam na adolescência, com mais prevalência no sexo masculino do que no sexo feminino.

Na minha experiencia profissional o perfil do individuo jogador compulsivo oscila entre os 24 e os 56 anos. Sexo masculino, classe media/alta, licenciados com carreiras profissionais estáveis, trabalham em excesso, têm dívidas, gostam de quebrar regras e correr riscos, são impulsivos e egocêntricos. Acreditam que o dinheiro é a causa e/ou a solução para os seus problemas. Alguns deles afirmam, em situações de desespero, ideações e tentativas de suicídio. Alguns destes indivíduos são oriundos de famílias desestruturadas com problemas de álcool, jogo e violência doméstica.    

 

 

Jornal de Negócios: As autoridades estão despertas para fiscalizar a multiplicidade de jogos disponíveis?

Na minha opinião, as autoridades estão conscientes deste fenómeno, mas ainda não existe vontade politica para mudar esta realidade associada aos problemas do jogo. Posso dar um exemplo, na última semana, todos os meios de comunicação social e redes sociais, faziam referência à morte do actor galardoado de Hollywood, Philipe Seymour Hoffman por overdose de drogas ilícitas. Se pensarmos em indivíduos com problemas de jogo, não me recordo de nenhum caso, de figura publica, quer seja estrangeiro ou português que tenha sido noticia. Todavia, quando surgem notícias relacionadas com indivíduos e o jogo patológico, o destaque é direccionado para actividades ilegais, dívidas, burlas, tribunais, são, erradamente, considerados casos de polícia. As pessoas são presas e estigmatizadas. Não recebem o devido tratamento.

Persiste o estigma, a vergonha e a negação. Actualmente, a indústria do Jogo é um negócio de muitos milhares de euros. Em Portugal, o jogo é um problema de saúde pública que ainda permanece obscuro e por avaliar os seus efeitos e consequências. É preciso vontade política.

Entre 01 de janeiro e 30 de novembro de 2013 foram gastos em apostas 854,9 milhões de euros no Euromilhões, em dez anos os portugueses gastaram nove mil milhões. Nos primeiros três meses de 2013 os portugueses gastaram 101 milhões de euros em raspadinhas. Segundo um estudo conduzido pelo Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa, a raspadinha é o terceiro jogo pelo qual a população, entre os 15 e os 74 anos, revelou ter maior dependência. Falta saber os valores e o impacto das lotarias, nos casinos, bingos, e jogos ilegais, nos cafés e bares das aldeias de norte a sul do país.  

 

Jornal de Negócios: Quais os perigos do jogo online? A adicção apresenta-se de forma diferente?

Segundo a minha experiencia profissional, os perigos do jogo online são insidiosos e complexo visto haver da parte do jogador patológico, acesso ilimitado à internet, independentemente da hora, do local, do dispositivo (computador, telemóvel, tablet). Conheço casos de indivíduos, quando chegam ao local de trabalho, ligam o computador, e imediatamente começam a jogar ou a consultar os sites de apostas ou poker ou mercado de valores, e assim permanecem, em segredo, sem conhecimento dos seus colegas e/ou entidade patronal, até ao final do dia. Obviamente, este tipo de actividade compromete seriamente o desempenho do trabalhador. Também utilizam os smartphones e os tablets para continuar a jogar/apostar em casa no final do dia de trabalho. Afirmam «É uma forma prazerosa de descontrair e relaxar, depois de um dia stress no trabalho». Negligenciam a relação com a sua parceira, com os filhos e/ou outro tipo de actividades sociais. Na maioria dos casos, a família desconhece ou permanece ignorante quanto às consequências reais do jogo. Alguns indivíduos permanecem «ligados» às actividades associadas ao jogo durante 12 a 14 horas diárias. Gradualmente vai aumentando a actividade associada ao jogo/apostas por longos períodos com incremento da frequência, da intensidade e da duração. Quanto maior a exposição à actividade associada ao jogo/apostas, maior o risco de desenvolver a adicção.

 

Jornal de Negócios: Como é possível “investigar” este tipo de adicção?

É preciso um plano nacional que vise erradicar e/ou atenuar o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. Existem mitos e preconceitos que visam discriminar o individuo adicto e a sua família. Segundo relatos das famílias, que pedem ajuda nas consultas, afirmam “Quando soubemos do problema do jogo do meu filho, decidimos ocultar de toda a gente, incluindo a família mais próxima e tentamos resolver o problema em casa. Mais tarde, reconhecemos que foi o pior que podíamos ter feito, porque ao invés de melhorar, ainda agravou, com a agravante de ter dividido a relação entre o eu e o meu marido. No fundo, sentimos imensa vergonha, porque nunca imaginamos que o meu filho pudesse ter um problema desta natureza. Levamos algum tempo até aceitar que aquilo que fazíamos para ajudar, só piorava. Hoje admito, como mãe, que sinto imensa vergonha do problema do meu filho. Só sabe o mal que isto é, quem passa por elas.” 

Em Portugal, a investigação ainda está numa fase embrionária, apesar de haver alguns profissionais dedicados ao estudo do jogo patológico, onde destaco o trabalho do Dr. Pedro Hubert. Para além da investigação, são necessários profissionais que assumam o compromisso, isto é, que dediquem a uma parte significativa das suas carreiras à formação continua, à investigação, à partilha de conhecimentos, experiencias e criarem-se equipas pluridisciplinares que se dediquem exclusivamente ao tratamento e recuperação dos comportamentos adictivos, e do jogo em particular. É necessário mobilizar a comunidade, em particular, e a sociedade, em geral para este tipo de fenómenos emergentes e transversais. Qualquer pessoa está exposta e vulnerável. Aquelas pessoas que consideram que a adicção só acontece aos outros, são provavelmente aquelas que apresentam mais factores de risco.

 

Quais são os custos do jogo patológico que representam para os cofres do estado? Em termos de comparação os custos do álcool representam 200 milhões de euros. Os custos do tabaco representam 500 milhões de euros.

Se houver, da parte dos decisores políticos, dos meios de comunicação social, legislação, um plano nacional de prevenção e tratamento como está acontecer com o tabaco, creio estarem criadas as condições para haver mais pessoas informadas, profissionais e instituições dedicadas ao tratamento. Como resultado, destes esforços, nos últimos anos, o número de pessoas que procurou ajuda para interromper a adicção ao tabaco aumentou significativamente.

 

Jornal de Negócios: Quais os perigos da publicidade relacionada com o jogo?

O mesmo fenómeno repete-se com o álcool, com o tabaco e também com o jogo. Apesar de haver mudanças nos paradigmas sobre o tabaco, em relação ao resto, as leis existentes ainda são permissíveis e não existem instituições credíveis independentes que monitorizem o marketing agressivo e a publicidade associada aos comportamentos adictivos. Isto é, o problema não são as substâncias psicoactivas lícitas e/ou o jogo, o real problema são as pessoas. Algumas pessoas conseguem consumir drogas, beber bebidas alcoólicas e/ou jogar sociavelmente sem que isso represente um problema para as suas vidas, todavia, enquanto outras, felizmente em menor numero, apresentam um risco maior. Tal como referi, no inicio, infelizmente existem muitos casos de pessoas que faleceram como consequência da adicção às substâncias psicoactivas, nos últimos anos, só para enumerar alguns, Michael Jackson, Amy Whinehouse, James Gandolfini,  Witney Houston e Philipe Seymour Hoffman. Segundo as Nações Unidas estimam-se que 160 mil milhões de dólares oriundos do tráfico de drogas, anualmente, sejam lavados na banca internacional. O fenómeno é idêntico com o jogo legal e ilegal. Os lucros astronómicos, os interesses financeiros e económicos estão acima dos direitos das pessoas. Apesar de sabermos que entre indivíduos com problemas de jogo o número de suicídio é elevado e os custos para o estado elevadíssimos, todavia, esta realidade ainda é negligenciada. Parte dos lucros da indústria do jogo deviam ser revertidos para a investigação e o apoio no tratamento do jogo.

 

Jornal de Negócios: Quais são as principais tendências de futuro? 

Após duas décadas a trabalhar na área dos comportamentos adictivos as tendências destes fenómenos relacionados com a natureza humana, são para se manterem. Estamos vulneráveis perante a dor e conseguimos convencer-nos que conseguimos ludibria-la recorrendo a estratégias e mecanismos cuja finalidade é o prazer imediato. No outro lado deste fenómeno, felizmente, também existem muitos casos de pessoas que recorreram à ajuda profissional ou através dos grupos de ajuda mútua dos 12 Passos (Jogadores Anónimos) que conseguiram ultrapassar a adversidade. Da mesma forma, que se estudam as causas e os sintomas do jogo patológico, também é necessário estudar aquelas pessoas resilientes que permanecem em recuperação durante períodos duradouros. Essas pessoas são um recurso valiosíssimo para a comunidade. É preciso sensibilizar o público em geral, através de informação e haver uma participação cívica mais activa, em relação a estes temas. Participei num programa, numa escola sobre a prevenção das dependências, e foram enviados para a associação dos pais, centenas de convites, apareceram seis pais. Perante a negação e a passividade é preciso uma revolução nesta matéria. Os nossos filhos merecem que os adultos zelem pelos seus direitos a uma vida plena.

 

Para terminar, gostaria de publicar um email que recebi de uma pessoa adicta ao jogo, do Brasil, também podia ser portuguesa, enquanto escrevia este artigo, a pedir-me ajuda.  

«Chamo-me Adélia. Li o seu blogue e a minha pergunta é a seguinte. Estava viciada em jogo de bingo (vídeo) naquele nível de pensar em suicídio, de jogar o dia inteiro e fazer ate xixi na máquina para não levantar e ir ao banheiro. Às custas de muito sofrimento e terapia estou à 1 ano e 2 meses sem jogar. Acho que é bom eu te contar como forma de estudares o meu caso. Como você sabe, a dependência das drogas é diferente do jogo, o corpo não tem contacto com drogas, mas tive abstinência terrível, tudo tudo mesmo, e só não tive convulsões. Felizmente, estou um pouco ou bem melhor. Queria saber porque é que ainda tenho depressão? Você acha que preciso de um anti depressivo ou vai melhorando sem remédio? Obrigada, fica com Deus, Adélia (nome fictício)»

Este tipo de problemas não acontece só aos outros. O silêncio não resolve, pelo contrário, a tendência é para se agravar. Lá porque não se vê, não quer dizer que não existe.

 

 

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