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Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

Recuperar das Dependências (Adicção)

Contra o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. O silêncio não é seguramente a melhor opção para a recuperação; ninguém recupera sozinho.

A Inteligência Artificial irá revelar-se uma mais valia.

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A imagem foi gerada através IA.

 
Recuperar é que está a dar, texto original do chatbot Co Pilot (Inteligência Artificial - I.A.). A IA ao serviço da recuperação dos comportamentos adictivos.
 
"Recuperar o que fomos, o que sentimos, o que perdemos no caminho.
Recuperar a coragem de tentar de novo, o brilho nos olhos e a vontade de seguir.
Porque cair não é o fim - é só a pausa antes do impulso.
E hoje, mais do que nunca, recuperar não é só tendencia; é resistência, é renascimento.
É o novo "dar certo". Porque agora, dar é recuperar... e recuperar é viver." texto do CoPilot IA
 
Comentário do autor do blogue. É uma verdade inquestionável e incontornável, a Inteligência Artificial (IA) veio para ficar não só em Portugal, como no mundo inteiro. Fenômeno idêntico às redes sociais HI5, Facebook (2005) Twitter, LinkedIn, etc. É a globalização graças ao poder do www (internet). Segundo um relatório de uma expert Mary Meeker, segundo o Euro News, apelidada de "Rainha da Internet", o sobejamente conhecido e pioneiro chatbot da IA o CHATGPT, da Open AI, após o seu lançamento ao publico, em Outubro de 2022, alcançou o astronómico numero de 800 milhões de utilizadores, em Abril de 2025. A empresa vale 3.5 biliões (quantos zeros são??). Curiosidades!!
Sou um otimista, nesse sentido, antecipo avanços e benefícios na utilização da IA na Intervenção, Prevenção, Tratamento e Recuperação dos comportamentos adictivos. São as pessoas e seus familiares, "apanhadas" na rede da Adicção, que vão beneficiar. Por exemplo, novas ferramentas contra o estigma, muito presente na sociedade (há demasiado tempo), novas ferramentas na intervenção, diagnostico, plano de tratamento e recuperação. Atualmente, a Adicção está presente na vida das pessoas em áreas, que há 20 anos atras ninguém imaginava. Hoje existem mais casos de Adicção na população jovem, refiro-me à dependência das redes sociais, gadgets ( por exemplo, utilização excessiva de telemovel), gamming, acesso indevido a vários tipos de conteúdos inadequados para a idade, por exemplo, acesso à pornografia aos 10,12 13 anos.  Não haverá uma cura, mas a IA pode revelar-se uma mais valia na recuperação, por exemplo, através de aplicações, acesso a informação apropriada e atualizada, acesso a equipas de profissionais multidisciplinares e centros de tratamento em regime de internamento. Há 30 anos, de experiencia na prevenção e tratamento das dependências (Addiction Counselor), o termo Adicção (conceito de doença - Associação Americana da Medicina da Adicção) e Adicto na sociedade e profissionais da área eram desconhecidos completamente.  

Leituras de 2024

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Foto Designer IA

As minhas leituras de 2024 das quais destaco

Daniel Kahneman, Olivier Sibony, Cass Sunstein - «O Ruido – uma falha no julgamento humano»

Talit Sharot – «A Mente Influente»

Francesca Gino - «Talento Rebelde»

James Clear – «Hábitos Atómicos»

Yuval Noah Harari - «21 Lições para o seculo XXI»

Robert Waldinger e Marc Schulz - «Uma Boa Vida»

Dacher Keltner - «O Paradoxo do Poder

Morgan Housel - «A Psicologia do Dinheiro»

Satya Nadella - «Faça Refresh»

Annie Duke - «Desistir»

Susan Cain - «Silêncio»

Dr. James Doty - «Dentro da Loja Mágica»

Paulo Finuras «As Outras Razões»

Mustafa Suleyman - «A Proxima Vaga»

David Brooks - «Como Ler as Outras Pessoas»

Dr. Bessel van der Kolk - «O Corpo Não Esquece»

O critério utilizado para a escolha dos livros, deve exclusivamente aos seus autores, investigadores de renome cuja temáticas, tais como os hábitos, as relações, o trauma, a recuperação e resiliência, pessoas e a felicidade, são temas recorrentes no meu trabalho. Desde 1993, dedico uma parte substancial, da minha longa carreira profissional à aprendizagem contínua a fim de prestar o melhor serviço de aconselhamento possível a todos aqueles que procuram na doença e na adversidade, encontrarem competências que lhes permitam navegar nos mares tempestuosos e vencer. O que seria de nós, se não houvesse problemas, defeitos, se não estivéssemos expostos à adversidade e/ou se não tivéssemos ajuda? Quando descobrimos a honestidade, quando definimos um sentido na vida, quando estabelecemos relações resilientes fazemos a diferença, pela positiva. As pessoas mais felizes gostam de pessoas.

 

Foi à primeira tentativa? À segunda tentativa?

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 "Em geral, nos EUA, 2 (duas) é o número médio de tentativas para tratamento de problemas sérios relacionados com o abuso de drogas e alcohol. Nos casos mais graves de dependência de drogas e alcool o número de tentativas para tratamento aumentam para o dobro." Recovery Research Institute

E em Portugal? Não conhecendo números ou estimativas em investigações, consigo refletir sobre o assunto de acordo com a minha experiência empírica na area do tratamento das dependências durante três décadas. Há trinta anos atrás, a disponibilidade do tratamento era completamente diferente do que é na atualidade. Atualmente, apesar de o estigma se manter inalterável e imutável, a disponibilidade de tratamento da adicção a drogas e álcool, creio estar ao alcance de qualquer pessoa, devido às novas tecnologias. Sabemos que quando se coloca a questão da necessidade de tratamento das substâncias psicoativas (drogas lícitas, incluindo o álcool, e ilícitas) na família, recorrem ao Google para facilitar na seleção da instituição. Na minha opinião, o número de tentativas para tratamento das drogas e álcool em Portugal é semelhante à realidade dos EUA, segundo o Recovery Research Institute.

Felizmente, conheço imensos casos de pessoas que à primeira tentativa conseguiram permanecer abstinentes e em recuperação durante longos períodos de tempo. Infelizmente, conheço algumas famílias e indivíduos, que andam há mais de duas décadas a tentar resolver o problema da dependência das drogas e do álcool. Para terminar, considero mais difícil, isto é, necessário mais tentativas para tratamento do que as drogas, o álcool. O álcool é uma droga legal e a sociedade encoraja, estimula, promove o consumo e o abuso do alcool entre as pessoas - pertencemos a uma cultura que bebe. Atrevo-me a afirmar que em pleno seculo XXI ainda existem pessoas que não sabem que o álcool é capaz de gerar dependência.

Sinais dos tempos - a adicção aos videojogos.

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Desde os tempos mais remotos, o ser humano precisou de se alienar, de negar a realidade e adapta-la à sua vontade, de entrar em contacto com algo que o transcenda, precisou de “amortecedores” e “filtros” para se relacionar consigo próprio e os outros. Há vinte anos atrás, em Portugal, as adicções mais conhecidas eram as dependências de drogas ilícitas, vulgo toxicodependência (termo em desuso), o alcoolismo e numa escala mais reduzida o Jogo patológico a dinheiro nos casinos. Na ultima década, as “velhas” adicções mantêm-se inalteráveis, com algumas mudanças (novas substancias psicoactivas ilícitas foram descobertas) e surgem as novas doenças do comportamento adictivo relacionados com a Internet (redes sociais, os videojogos e o jogo patológico online a dinheiro). Mais recentemente, surgiram noticias nos meios de comunicação social de que a Organização Mundial de Saúde decidiu que a adicção aos videojogos (comportamentos adictivos) será incluída na revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde, previsto para 2018 cuja sigla é conhecida como CID. Significa que, brevemente, todos nós iremos ter acesso aos critérios de diagnostico da doença e a respetiva legislação. Costumo dizer que jogar está no nosso ADN: quem é que não gosta de jogar? Quem é que joga para perder? Talvez por isso os vídeos jogos sejam uma indústria milionária que gera milhões de euros em todo o mundo.

 

 

Carta ao Jack, amigo do pai.

 

O pai de Laura tinha um problema com o alcool, nesse sentido, ela decidiu escrever uma carta ao « Jack, amigo do pai». Sabia que as crianças, são negligenciadas nos casos em que o progenitor ou ambos abusam do álcool?  São o elo mais fraco.

 

Ao contrario do que se pensa, é possível recuperar da adicção

Suicídio: um acto silencioso e isolado fundamentado em sentimentos temporários e dolorosos.  

Acompanhei inúmeras pessoas que durante uma fase atribulada e dolorosa das suas vidas, afectadas pela adicção activa, contemplaram o suicídio. A adicção é uma doença que na sua génese gera imenso sofrimento, isolamento e que precisa de ser tratada; não é uma questão moral ou fraqueza, mas um problema de saúde, tal como muitos outros. Após ultrapassarem essa fase adversa, essas são pessoas, hoje, não menosprezam as lições do devir. A maioria de nós, nos momentos atribulados de dor intensa, questiona a existência angustiada e atormentada, mas depois de transpor estes sentimentos dolorosos, ficamos mais lúcidos e conscientes das nossas limitações. Apesar de precisarmos de aprender a viver com a dor, podemos e conseguimos mitigar o sofrimento e o isolamento. Como bem sabemos, e por vezes ignoramos, o ego inflamado pode conduzir-nos às nuvens, mas quando fica dorido, também pode arrastar-nos para a escuridão.

 

É um mito considerarmos que o suicídio é um "acto de cobardia ou de coragem". A fim de esclarecer melhor esta questão, podemos fazer esta analogia; decidir matar outra pessoa só por não gostarmos dela nunca será considerado um acto de coragem ou cobardia. Podemos aplicar a mesma logica ao suicídio; fazer mal a nós mesmo, quando nos sentimentos angustiados e deprimidos, também nunca será um acto de cobardia ou coragem. Qualquer pessoa que pense no suicídio estará naquele período de tempo, a viver uma vida atormentada e em sofrimento atroz. Para todos os efeitos, está doente e debilitada. Como é que gerimos os nossos sentimentos quando nos sentimos impotentes perante a angústia e o tormento? Quando sentimos que estamos sós e rejeitados?

 

“Não tome decisões permanentes, sobre sentimentos temporários.”

 

Apesar do sofrimento e da dor temporária; é possível recuperar da adicção, um dia de cada vez.

Saiba mais sobre a dor e o suicidio SOS Voz Amiga. Você não está sozinho/a

 

Dr William D. Silkworth

 Dr. William Duncan Silkworth (1873-1951)

 

27 de Julho de 1938 - O Dr. Silkworth escreve um artigo que é publicado no livro "Big Book", dos Alcoolicos Anónimos,intitulado “A Opinião do Médico" 

 

"Especializei-me no tratamento do alcoolismo durante muitos anos. 

No inicio dos anos 30, tratei um paciente que, apesar de ter sido um homem de negócios competente, com muita capacidade para ganhar dinheiro, era um alcoólico de um tipo que eu tinha chegado a considerar irrecuperável.

Durante o seu terceiro tratamento adquiriu determinadas ideias sobre um possível programa de recuperação. Como parte da sua reabilitação, começou a dar a conhecer os conceitos do seu programa de recuperação a outros alcoólicos, incutindo neles a necessidade de fazer o mesmo com os outros. Este conceito veio a tornar-se a base de uma associação formada por alcoólicos em recuperação e pelas suas famílias em rápido crescimento. Tudo leva a crer que este homem e mais uma centena se recuperaram .

Pessoalmente, conheço também um numero de casos idênticos em que outras abordagens diferentes falharam por completo.

Estes factos parecem ter a maior importância médica, e devido às extraordinárias possibilidades de rápido crescimento inerentes a este grupo, eles podem vir a assinalar uma nova abordagem nos anais do tratamento do alcoolismo. É bem possível que estes homens tenham um solução para milhares de casos de pessoas com problemas com o álcool.

Pode confiar-se inteiramente em tudo aquilo que partilhem a respeito de si próprios.

Atenciosamente, 

William D. Silworth"

 

Comentário: No passado dia 27 de Julho de 2014 celebrou-se setenta e seis anos (76) após a publicação da carta do Dr. Silkworth. Podemos constatar que a sua visão sobre "(...) estes homens..." veio revelar-se uma realidade inquestionável, não só nos EUA, mas em todo o mundo, incluindo Portugal. Faço votos que mais profissionais da saúde, em Portugal, possam também ter uma visão semelhante sobre o tratamento do alcoolismo visto ainda existirem imensos mitos, estigma e falsos preconceitos sobre o programa de recuperação dos Alcoólicos Anónimos.  

RIP, Dr Silkworth.

 

O jogo problemático é um problema de saúde publica

 

Este artigo foi publicado no Jornal de Negócios (17 de Fevereiro de 2014)e está disponível só para assinantes online , nesse sentido, disponibilizo-o para si que é seguidor do blogue Recuperar das dependencias.

 

Jornal de Negócios: Nos últimos anos, o volume de jogos de fortuna e azar e apostas desportivas foram aumentando quer em locais físicos, mas como através da Internet. Esse crescimento foi acompanhado pelo registo de incremento de pessoas com adicção de jogo?

O incremento de pessoas com adicção ao jogo e o jogo patológico, através da internet tem sido exponencial. Por exemplo, no final dos anos 90 a maioria dos indivíduos adictos ao jogo, em casinos, eram adultos na casa dos 40 e dos 50 anos. Hoje em dia através do acesso online, chegam às consultas indivíduos com problemas associados ao jogo com idades entre os 24 e os 30 anos. Todavia, isso não quer dizer que todos sejam adictos ao jogo, isto é, alguns são indivíduos com problemas associados ao jogo que varia entre moderado e grave. Na sua pergunta refere adicção, nesse sentido, importa saber o que é a adicção. A adicção afecta a saúde do indivíduo, os vínculos familiares, incluindo das crianças, o desempenho profissional e a qualidade de vida. Ser adicto não é uma escolha pessoal. Ao longo de vinte anos de experiência profissional, na área da adicção, nunca ouvi nenhum individuo afirmar que escolheu ser adicto. Não é um acto voluntario, o individuo perde o controlo, a compulsividade, o craving (desejo intenso e irracional pela actividade) e continuação do comportamento apesar das consequências negativas. A Sociedade Americana da Medicina da Adicção define a adicção como uma doença primária, crónica que interfere e afecta o sistema/estrutura do cérebro responsável pelo prazer e recompensa, pela motivação e memoria e os circuitos neuronais adjacentes. Sabemos que uma alteração e disfunção destes circuitos neuronais conduzem ao aparecimento de sintomas a nível biológico, psicológico, social e espiritual no indivíduo, que se reflectem na busca e recompensa patológica do prazer. Por outras palavras, a adicção funciona como uma “almofada” perante determinadas situações e adversidades ao longo da vida do indivíduo. Este fenómeno repete-se com a adicção às substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, as ilícitas, vulgo drogas, com o jogo, o sexo, as compras, o furto. A fim de ficar esclarecido existe um critério que identifica o jogo problemático (moderado a severo) e um critério para a adicção (doença primária e crónica). A adicção não é um vírus.  

Segundo estudos (American Medical Association, EUA, 2000) existem factores genéticos em comum entre os indivíduos jogadores patológicos do sexo masculino e o álcool. Todavia, também gostaria de referir que nas últimas duas décadas, com os avanços tecnológicos e a investigação, principalmente nos EUA e Canadá, ainda estamos a aprender sobre o que é a adicção; as causas, a identificar aqueles indivíduos mais vulneráveis e os tratamentos disponíveis mais adequados.

 

Jornal de Negócios: É possível traçar o perfil do jogador compulsivo?

Segundo uma investigação no Canadá, os indivíduos com problemas associados ao jogo compulsivo (patológico) apresentam quatro vezes mais probabilidades de serem diagnosticados com doença mental, relacionado com perturbação do humor e ansiedade, do que os indivíduos não jogadores. A actividade associada ao jogo começam na adolescência, com mais prevalência no sexo masculino do que no sexo feminino.

Na minha experiencia profissional o perfil do individuo jogador compulsivo oscila entre os 24 e os 56 anos. Sexo masculino, classe media/alta, licenciados com carreiras profissionais estáveis, trabalham em excesso, têm dívidas, gostam de quebrar regras e correr riscos, são impulsivos e egocêntricos. Acreditam que o dinheiro é a causa e/ou a solução para os seus problemas. Alguns deles afirmam, em situações de desespero, ideações e tentativas de suicídio. Alguns destes indivíduos são oriundos de famílias desestruturadas com problemas de álcool, jogo e violência doméstica.